Em meu último artigo, intitulado “Polícia e Curandeiro“, percebi que muitas pessoas me entenderam mal. Justo, afinal deixei o cerne da questão subentendido. Mas para não deixar nada debaixo da mesa, vamos lá.

Porque o dito “curandeirismo” e alguns outros “serviços sobrenaturais” pagos deveriam ser crime (alguns hediondos)?

Antes de responder essa questão, vamos tentar enxergar a evolução das coisas. Imagine o mundo a há dezenas de séculos atrás. O curandeiro já existia. Ele usava plantas e orações aos deuses para curar. Era passado de pai para filho o que tal planta faz e como ele pode ajudar e, em cada geração, provavelmente era descoberta uma nova aplicação ou nova planta. E os medicamentos naturais, em grande parte, eram muito efetivos. Mas ainda sim eles utilizavam o “agrado aos deuses” pois, até então, não corriam o risco de aplicar medicamentos sem rezar, e achavam que as duas coisas estavam interligadas.

Contudo, em algum ponto da história, algum curandeiro percebeu que a “reza” não fazia diferença na cura (a não ser a fé do próprio doente que, como foi descoberto recentemente, por manter o cérebro em “função de cura”, podia ajudar no tratamento, mas isso é outra história). Com a desvinculação da reza e do medicamento, os curandeiros mais avançados passaram a investir seus estudos somente nos frutos da natureza e nos seus valores medicinais. Resumindo: O curandeiro do passado, é o médico de hoje. Evolução, meus caros.

O caminho da evolução intelectual e tecnológica sempre conta com pequenas bifurcações. E uma dessas bifurcações que chegou aos dias de hoje foi a dos “curandeiros paranormais” que, ao contrário daqueles que descartaram a reza, eles descartaram foi o medicamento. Se tornaram convictos de que forças invisíveis são muito mais eficientes do que remédios e cirurgias. Nunca saberemos se a maioria deles realmente acredita nisso ou só usa essa teoria para ganhar dinheiro.

Nos encontramos hoje numa sociedade espiritualmente caótica. Influências de várias religiões, limitações criadas através de dogmas, crenças completamente diferentes umas das outras e todas tentando sultimente impor sua fé aos outros, sem contar as imposições sangrentas do passado e as de hoje. Todo esse delírio cultural guiado pelas nossas questões sobre o pós-morte, resulta numa enorme parcela da humanidade espiritualmente insegura, apta a acreditar em qualquer coisa que lhe pareça convincente, bem como aberta à idéias absurdas. E é nesse cenário que surgem aqueles que acharam na ignorância e crendice uma mina de ouro. O nível de sucesso desses charlatães oportunistas varia de cultura a cultura.

Em países como Brasil, que são regidos não só pela ignorância espiritual, como também a intelectual, vemos um cenário propício ao sucesso de inúmeros tipos de charlatanismo, dentre eles, o mais perigoso: o curandeirismo.

Porque perigoso? Muitas pessoas só optam por um “curandeiro” quando todas os recursos científicos e até religiosos se mostraram ineficientes e a morte se torna iminente. Mas existem outros (e não são poucos) que nem se consultam com um médico, vão direto ao curandeiro. O curandeiro, acreditando ou não no seus poderes, vai fazer seu trabalho. Muitas vezes a pessoa se cura, mas se curaria mesmo se tivesse ficado em casa; Em outras ocasiões a doença pode ser mais séria e começar a evoluir à um ponto perigoso. Nesse caso o curandeiro tem duas opções: Se revelar ineficiente e mandar o “paciente” para um médico, ou arriscar na sorte. E é aí que mora o perigo. Muitos curandeiros ganham bastante dinheiro e mandar alguém para um médico pode ser ruim para os negócios, e assim eles fazem seu teatro até o último momento, que às vezes, pode ser tarde demais.

O famoso curandeiro chamado “João de Deus” não cobra por suas consultas (pelo menos não diretamente), e recebe “pacientes” do mundo todo aqui no Brasil. Ele cura as pessoas através de energia e de outros espíritos que usam seu corpo para fazer cirurgias espirituais. Num documentário recente do Discovery Channel, uma equipe acompanhou várias pessoas desesperadas com suas doenças, desde que chegaram no Brasil até voltarem para casa. Nenhuma delas obteve um resultado significativo. O interessante é que uma dessas pacientes, começou a ficar pior. E através de um ato responsável (vindo de um charlatão), João de Deus ligou para essa mulher e a chamou para ir à sua casa. Lá chegando, o curandeiro diz a ela “que um espírito de luz enviou uma mensagem dizendo que ela deveria ir à um médico”. Ela foi ao médico, fez uma cirurgia e se curou. Não é que João de Deus acertou?

Os curandeiros, em sua maioria, são expertos. Sabem que podem ser presos se alguém morrer após ser impedido ou influenciado a não ir à um médico. Contudo, sequelas físicas ou psicológicas sempre ficam nos pacientes. O medo e a incredulidade na medicina convencional, acabam por matar. O curandeirismo envenena a sociedade e distorce o caminho do avanço. Por terem poderes mais impressionantes, os curandeiros, para muitas pessoas, são mais interessantes que os médicos.

Mas a exploração da ignorância, que é usada em todas as áreas, acaba por criar um outro tipo de crime: extorsão. Mas em muitos lugares, como o Brasil, não é considerado crime, pois é uma extorsão espiritual. E se algum dia a exploração da ignorância se tornar crime, não sobrará quase nenhum político no país.

Imagine uma pessoa, fruto da ignorância, da crendice e da confusão espiritual (como eu citei mais acima), sentada na praia, vem uma daquelas típicas “ciganas de praia” com dentes de ouro e roupas de festa junina, e simplesmente diz “uma pessoa lhe quer muito mal e está te prejudicando”. Boa parte dessas pessoas tem um pouco da dita “mania de perseguição”, e logo vão dar dinheiro para a cigana “desfazer o trabalho”. Elas também costumam falar daqueles pontos comuns que todos nós temos em nossa vida: amor, dinheiro, carreira… São coisas comuns na grande maioria dos seres humanos, mas que por algum motivo achamos ser caracteríscas particulares únicas e por isso muitos caem nesses golpes. Seria como a cigana dizer “Você, nesse momento, está respirando”, e então você se admirar com o poder de adivinhação dela.

Esse tipo de pessoa, inventa desgraças, infortúnios, doenças e todo o tipo de ameaça terrena, criando o medo nos ignorantes, que são explorados dessa forma achando que através da “mágica” seus males (que na verdade não existem) serão abatidos.

São inúmeros os tipos de charlatanismo que explora a ignorância. E a cada dia uma nova vítima gasta dinheiro para nada. E os exploradores continuam andando livremente, bloqueando a evolução e sujando a sociedade.

O programa australiano de TV Sixty Minutes, certa vez fez uma experiência para saber o quão fácil era criar um “paranormal de sucesso” e que mediu o grau de ignorância científica e crendice, criando um guru fictício que tinha poderes de cura e adivinhação. Contrataram um ator, montaram um roteiro, soltaram a notícia na TV e pronto. Milhares e milhares de pessoas se aglomeravam nas apresentações feitas pelo guru. Muitas afirmavam terem sido curadas. Quando finalmente o programa TV informou ao público que aquilo tinha sido um experimento e que o guru era na verdade um ator, ainda restaram pessoas dizendo que era mentira e que a TV estava tentando acabar com a reputação do curandeiro. Precisamos de provas mais concretas da crendice humana?

Creio que não devemos deixar passar o fato de que existem doenças que são criadas e curadas por nossa própria mente. Ela é poderosa. E quando um curandeiro obtém sucesso, sua vítima jamais imagina que foi ela mesma que se curou. E muitas vezes que foi ela mesma que criou a doença, seja por influência dos adivinhos ou por tragédias ocorridas na vida.

Dessa forma levamos a vida, acreditando no que nos convém e pegando o precisamos custe o que custar, escrevendo assim mais uma página do enorme livro de piadas que a humanidade do futuro terá.