No último dia 15, em SP, uma jovem de dezenove anos e seu namorado foram presos e autuados em flagrante por homicídio. A vítima: a própria mãe da jovem; No dia 13/04, um lavrador, no ES, levou dois tiros na cabeça enquanto sua esposa junto com sua filha de 5 anos foram carbonizadas propositalmente. O motivo do crime pode ter sido uma simples desavença sobre uma mísera venda de mandiocas… Etc… Etc… Etc…

Eu poderia escrever páginas e mais páginas de acontecimentos desse tipo só no Brasil nesse último mês. Mas me contentarei com esses acima para fazer a seguinte pergunta: Porque somente o caso da menina Isabela está sendo alvo desse grande show da imprensa?

O que acontece, meus caros provincianos, é que vocês (espero que a carapuça não sirva em todos os meus leitores) são os alimentadores e ao mesmo tempo as vítimas desse espetáculo oportunista da imprensa. Com o fim do BBB, o brasileiro sem-perspectiva-nem-cultura-nem-história-nem-educação precisa de algum outro reality-show para se distrair, para discutir uns com os outros e para preencher o enorme vazio de sua mente.

O fato é que aproximadamente 800 crianças são assassinadas por ano só no Brasil e nossa mídia armou um palco enorme para somente um desses casos. Assim é a mídia, já repararam? Sempre existe uma notícia “bola-da-vez” que se fixa em todos os canais e programas e serve fatidicamente até os mais efêmeros detalhes.

E para um acontecimento tomar essas proporções, basta que a mídia detecte o interesse um pouco maior da população em determinado acontecimento e assim, disfarçando-se de “imparcial”, engrandece um pouco mais o caso, e dependendo da reposta do público, continua numa incessante e maciça cobertura que fará com que um assassinato vergonhasamente comum em nosso país se torne um ato extremamente cruel que jamais se viu, e o dito “interesse um pouco maior” da população se torna febre nacional, com direito aos envolvidos no caso virarem celebridades, participarem de shows tirando fotos ao lado de “fãs” e uma mobilização de grande parte dos provincianos que viajam kilômetros até a porta da delegacia para profanar os suspeitos, jogarem pedras e aparecerem na televisão como macacos saltitantes ou pequenos “papagaios-de-pirata”.

Chegando a esse ponto, começam a surgir as testemunhas que antes não sabiam de nada, os “especialistas” com seus comentários e opiniões sobre o crime, os amigos distantes que de repente se tornam amigos próximos que sabem exatamente como era a vida dos acusados e por aí vai.

E com tantas câmeras e atenção geral dos provincianos, a polícia trabalha melhor, os advogados compram ternos novos, os peritos mostram um profissionalismo incrível e são gastos mais recursos para resolver o caso do que se gastou em 50 outros crimes iguais.

O circo está montado, os palhaços entretêem o público e é nessa hora que surge a pior das atitudes: O Julgamento. Esse não se dará nos tribunais, pois cada espectador ali presente na arquibancada do circo se torna um juiz, um inquisidor. No caso Isabela, o pai e a madrasta já foram julgados e condenados.

O que estou querendo dizer é que pouco me importa se eles são culpados ou inocentes. O que me aterroriza é que, apesar de várias evidências contrárias, se eles forem inocentes, eles jamais terão liberdade nesse país. Seus rostos, seus nomes, suas famílias, todos foram marcados e condenados para sempre pela mídia e seus manipulados.

Ao conversar com uma advogada sobre o presente artigo que escrevo, ela me disse: “A não ser que eles confessem, as chances de eles não serem condenados no tribunal é grande, pois não existem ainda provas conclusivas”. Mas estamos no Brasil e o povo já os condenou. Será que isso pesa no júri composto por essas mesmas pessoas manipuladas?

O pré-julgamento está presente no nosso dia a dia, em nossos atos, em nossas relações com os vizinhos, amigos e desconhecidos, e não seria exceção num caso como esse, e é por isso que, mesmo “achando com quase certeza” que uma pessoa é culpada, é preciso provas concretas para condená-la. Ao fazerem o pré-julgamento desse caso, os provincianos se deixam levar pelo óbvio, esquecendo-se que o “óbvio” já matou e condenou muitos inocentes. Porque ninguém usa um pouco a imaginação e especula que foi um próprio morador psicopata do prédio que cometeu o crime, e não um invasor? É porque isso é improvável. E se foi mesmo o casal que cometou o crime, porque os chamam de monstros sendo que na verdade o que pode ter acontecido é que mataram a menina sem querer e, com medo de irem para a cadeia por causa de um acidente irresponsável, resolveram ocultar o crime? Novamente é porque isso é improvável e também humano demais para ser verdade. Sim, isso é humano: o medo. E o medo é capaz de coisas que preferimos não acreditar que somos capazes.

E se eles realmente forem culpados? Que a justiça seja feita, mas só depois de provar a culpa e não antes, como está acontecendo.

Enquanto os provincianos se distraem com esse show, outras dezenas de crianças morrem assassinadas e esquecidas em uma pequena nota de um jornal regional, os políticos roubam, o presidente mente, horrores dos mais diversos tipos acontecem, o senado aprova uma lei absurda, os sindicalistas gastam o dinheiro público em maracutaias protegidos contra fiscalização… E ninguém fala nada. Ninguém vai lá jogar pedras. Ninguém protesta. Todos estão sentados em suas poltronas assistindo a mais um capítulo sensacionalista da novela protagonizada por uma pobre criança que já não vive, vítima da ignorância, da mídia, do governo, e talvez de um pai ou uma madrasta, ou de um vizinho, ou de qualquer ser humano que pouco antes também assistia um outro show dos jornais. Direta ou indiretamente.

Fontes dos crimes citados no primeiro parágrafo: esse e esse