Ultimamente têm se falado muito em usar células tronco para pesquisas que podem resultar em grandes avanços na medicina. O motivo desse assunto esses dias no Brasil está no fato de que o STJ está decidindo se permite ou não o uso das células para fins de pesquisa. (Se você não sabe o que são células tronco, leia nesse link).

Câncer, Alzheimer, doenças do coração, distrofia muscular e cegueira estão dentro da lista de muitas outras doenças que podem ser curadas com os resultados desse tipo de pesquisa. Aliás, cegueira talvez não, pelo menos a cegueira religiosa, que ainda está longe de ser curada.

Os “crentes” (e nesse caso os católicos também estão incluídos), são contra as pesquisas com célula tronco. Porque? Nem eles mesmos sabem. Mas falou em mexer com um embrião, eles não querem nem saber de ciência, é aborto e pronto.

Penso que todos têm direito a acreditar no papai noel, na fada do dente, e no anjinho que desce do céu, na hora em que um óvulo fecundado em laboratório, e lhe dá uma alma tornando aquele “ser” unicelular, em vida.

Vida? O que é vida? Talvez aí está o cerne de toda a discussão: no “quando começa a vida”. E obviamente você tem duas opções: olhar cientificamente ou religiosamente. Descartando o fator “espírito que o anjinho trouxe”, só nos resta dizer que aquele montinho de células só ganha o que chamamos de vida quando seu sistema nervoso começa a se formar. Resumindo: quando ele começa a sentir (e mesmo assim há controvérsias). Já olhando pelo lado religioso, é impossível criar um argumento mais convincente que o do anjinho que traz sua alma na hora da fecundação e a aquela célula que não vê, não sente, não pensa, não ouve, não respira e não faz nem é nada além de uma célula que começa a se reproduzir, é vista como uma pessoa.

A o meu ver, isso não é uma pessoa, pelo menos a fecundação in vitro (não quero tocar no assunto aborto ainda). Aquela “célula” é somente algo que poderá, talvez, ser uma pessoa um dia, igual aos quilos e mais quilos de esperma que descem pelos esgotos todos os dias e ninguém cria polêmica (se é que vocês me entendem).

Apesar de tudo isso, ainda me resta aquela pontinha de dúvida “mas e se…”. O fato é que essa dúvida não é argumento e muito menos justificativa para deixar milhões de pessoas com doenças incuráveis, sofrerem por um bloqueio científico promovido por especulações e hipóteses absurdas provenientes das religiões.

Temos que parar de nos ver como deuses. Somos o “top de linha” da evolução animal, mas nem por isso deixamos de ser animais. Somos mortais. E o que nos difere daquele rato de laboratório que nenhuma igreja reclama por ele ser sacrificado, de forma muitas vezes cruel, em nome da ciência, é somente nosso cérebro mais evoluído.

Eu já disse por aqui que não consigo ser ateu. Quanto mais eu penso, mais crio teorias para ambos os lados. Há ou não há algo após a morte? Para onde vai nossa consciência? Ela vai para algum lugar? Mas tudo isso se torna mais claro quando olhamos a humanidade como um todo, como um monte de seres vivos que não conseguem ver o sofrimento alheio (salve muitas exceções) e por isso tentam ajudar uns aos outros. E tirar alguém da cadeira de rodas ou curar de um câncer é algo que simplesmente não pode ser opção, e sim um dever. E se a ciência tem grandes chances de fazer isso usando uma célula, que o faça, mesmo que, da mesma forma que se permitem construir casas sem lareira - bloqueando a entrada do Papai Noel, essa célula seja chamada por uns de ‘bebezinho lindo” ou “milagre de Deus”.

Talvez dizer “milagre de Deus”, nesse sentido vital, não seja uma crendice e sim um fato. É realmente um milagre podermos usar células tronco para vencer grandes desafios da medicina e, seja lá Deus quem for, ele “nos deu” esse instinto de compaixão para o fazermos, para nos salvarmos e evitarmos que pessoas (que pensam, sentem, vivem) tenham sua passagem pela terra de forma sofrida e limitada só por causa de uma estupidez em massa promovida pela religião.

(Continua em breve…)