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Dear Anne

Por Christian Gurtner em 23/08/06

4:44 da madrugada. Estranho olhar e ver essa sequência de quatros no relógio. A insônia me joga novamente para frente do computador. Insônia não. Afinal chega uma certa hora em que durmo como uma pedra. Mas vou até ao limite. A ansiedade não me permite dormir enquanto ainda resta energia no corpo.

Abro um vinho? Não. Vou fazer café. O cheiro do café me perturba os pensamentos. Adoro cheiro de café. Penso que isso é consequência de eu gostar da manhã. Não, não hoje. Odeio a manhã quando ainda não dormi. Gosto de acordar junto com o mundo, renascer com o desabrochar das flores e a última gota de orvalho que volta para a terra. Não gosto de dormir. Aliás, gosto muito de dormir, mas odeio ter que dormir e por isso gostar. Dormir é perda de tempo. Sabia que de cada três anos que você vive, um deles você passa dormindo? Perdemos um terço de nossas vidas dormindo. Mas eu sei porque: Há milhares de anos atrás (muitos milhares) os homens não precisavam dormir. Não precisavam fazer nada, na verdade. Bastava uma cochilada pra recuperar as forças. Eis então que chega um ancião que sobe na pedra da sabedoria e prega para os outro homens: “Chega de bagunça! Inventei um treco que se chama ’sociedade’ e a partir de hoje todo mundo vai ter que usar.”

E o velho distribuiu uma cartilha com todas as regras dessa nova invenção. Uma delas alarmou os pobres coitados. Era uma regra que dizia: Todo mundo tem que trabalhar 20 horas por dia. O desespero foi geral. Mas foi aí que um índio de um país cheio de pau-brasil que estava ali de intercâmbio teve uma ótima idéia. “Vamos dizer que estamos evoluindo e por isso precisamos dormir mais” Todos gostaram da idéia, até o velho. O problema foi resolvido. Se o homem precisasse dormir mais, trabalharia menos.

E assim chegamos aos dias de hoje onde eu deveria estar dormindo, mas como não preciso, fico no computador. Índio esperto aquele.

Acho que preciso ligar uma música. Qual? Vejamos… Africa. Gosto dela. Da música. Toca a alma. A música, em geral, sempre me guia, em tudo para tudo. A música traz nostalgia. Me faz lembrar a Anne. Ainda não a conheço pessoalmente. Na verdade nem sei se ela existe pessoalmente. Poderia existir, pois eu me casaria com ela. É a mulher que costumamos chamar de “perfeita pra mim”.

Ora! À essa hora da madrugada pensando na ilusória Anne em frente ao computador. Enquanto isso, em algum lugar, uma certa Anne está sentada em frente ao computador pensando no ilusório Christian. Ambos vão dormir. No dia seguinte o Christian está numa estação de trem francesa. A Anne também. Eles se cruzam, se esbarram. Ela o chama baixinho de desastrado. Ele olha para seu rosto que de tão belo o deixa sem graça. As energias se esbarram. Ambos sentem aquele choque e sabem no fundo que se desejam. Não os corpos, as almas. Mas eles nem escutam as vozes de seus espíritos que estão cada dia mais abafadas pela superficialidade mundana. Ela desvia o olhar, fecha a cara, pois afinal ele pode ser um estuprador, um bandido e um cafajeste. Ele olha em seus olhos pois sabe que será o máximo que poderá tirar dela, afinal uma mulher tão linda deve ser metida e fútil. Cada um vai para um lado e somem sem nem sequer terem sabido o nome um do outro. Na noite daquele mesmo dia os dois estão sentados em seus computadores. Ela pensando no ilusório Christian, e ele pensando na ilusória Anne.

5:21h O sol tenta se esconder para me poupar da angústia de ver o dia nascer enquanto ainda não dormi, e deixa tudo escuro. Mas eu sei que ele está lá. Sei sim. It´s just another day.



Esse post foi publicado na categoria "Leituras Diversas", em 23/08/06 às 08:08.
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3
comentários
  1. Manuella disse:

    Estava com saudades de ler coisas assim… Já tinha virado coisa rara vc expressando sentimentos… e mais uma vez, um lindo texto. Parabéns!

    Escrito em 25/08/2006 às 13:08
  2. Alessandra disse:

    Olá!
    Estou construíndo o meu site de podcasts e vi seu post “Tudo sobre podcasts”. Achei genial! Gostaria de saber se posso indicar esse post no meu site de podcasts, para as pessoas que queiram saber mais sobre o assunto.
    Parabéns!
    Superabraço

    Escrito em 25/08/2006 às 21:08
  3. Alessandra disse:

    Oi!
    Seu artigo já está linkado:
    http://www.justalepodcast.blogger.com.br/podcasts.htm

    Quando ao ruído, estou trabalhando nele, quer dizer, contra ele! :-)
    Na verdade, tenho de trocar minhas caixas de som, que são do “Grupo Capivara” (agora com “équio”). :-D

    Prometo que arrumarei em breve.
    Obrigada pelo feedkback!
    Suuuuperabraço!

    Escrito em 28/08/2006 às 16:08

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