Dia dos Mortos-Vivos
O Brasil é um país engraçado, quase ridículo - quase. Só não chega a esse ponto porque tem muita gente que assim o acha dos pés a cabeça, ou melhor, de Porto Alegre a Manaus, e dessa forma o país fica menos ridículo.
Somos cheios de “dias”. Dias das mães, dos pais, da padroeira disso e daquilo (nunca entendi como existem milhares de “Marias” diferentes), dia das crianças, dos professores e demais profissões. Cada dia é dia de uma coisa, e vários desses dias são feriados nacionais. O mais interessante é que um desses “dias” só é um dia importante quando é feriado, e se não o é, passa despercebido até pelos próprios homenageados. Quando tem um feriado as pessoas só querem viajar ou aproveitar o “dia livre”, e muitas vezes nem se sabe o que aquele dia está comemorando. Que dia mesmo é comemorada a proclamação da república? E o 7 de setembro? Todos somem em viagens, enquanto no 4 de julho dos E.U.A. todos saem orgulhosos pelas ruas.
Os “dias especiais” são também muito apreciados pelo comércio. Aliás, o comércio é o que mais aprecia esses dias. Tanto é verdade que se não fosse o comércio com seus anúncios publicitários, iríamos deixar passar dias como o das mães, das crianças e dos pais completamente desapercebidos, da mesma forma que deixamos passar, sem nem sequer saber ou lembrar que existe, o Dia dos Adultos (15/1), o Dia da Constituição (24/1), Dia do Hino Nacional (13/4), Dia do Soldado Desconhecido (11/11) e vários outros “dias” que vocês cairiam para trás só de saber que eles existem.
Ontem, domingo, 4/11, foi dia do inventor - diga-se de passagem. Na sexta foi dia dos mortos. Quem inventou a morte? (Desculpem-me pela piada infame).
Afirmo então que certos dias só tem a importância que tem porque o comércio viu ali a oportunidade de tirar uma grande soma de dinheiro e assim fazem de tudo para tornar um dia qualquer num dia moralmente sacro.
Esperava que, no ponto que chegamos, nessas últimas semanas - antes de sexta-feira - veríamos comercias do tipo “Nesse dia dos mortos, deixe seu morto mais feliz, compre cravos-de-defunto na Floricultura do Zé” ou então “Seu morto está morrendo de vontade de reformar a lápide? Então nesse dia dos mortos, compre uma nova lápide na funerária Só-Falta-Você”.
Pode parecer humor negro, mas, isso não está longe de acontecer. Se você já viu os tipos de comerciais de funerárias e cemitérios particulares que estão sendo exibidos ultimamente, você sabe que não estou exagerando. Como exemplo, cito aqui os dizeres de um outdoor que vi há um ou dois anos atrás:
Confiar a tranquilidade de sua família nas mãos de qualquer um? Nem morto! - Funerária blablabla
Não é piada. Eu juro que esse outdoor existe (ou pelo menos existiu). E assim podemos imaginar até que ponto vai o comércio. Quanto você gasta por ano presenteando pais, mães, filhos? E todos três vezes por ano: O dia especial, o aniversário e o natal. Ah, tem a páscoa também com seus caros ovos de chocolate. Esses dias praticamente se resumem em presentes.
Tirando o dia dos mortos, temos mais 364 dias para comemorar os dias dos vivos. Deixemos de ser mortos-vivos e comecemos a pensar vivamente até quando continuaremos sendo ridículos ao nos deixarmos a mercê dessa lavagem cerebral, dessa moral falida, desse falso patriotismo e falta de perspectiva.












English version (click)


Sinto-me lisonjeado de fazer parte deste castelo que a muito tempo deixou de ser imaginário e passou a ser real nas opiniões e comentários expostos aqui!
Acho que o principal dia feriado do comércio é o Natal, que por acaso ta chegando ai. A cada Natal, sinto-me mais e mais frustrado e decepcionado com o que chamamos de sociedade.
Pergunte a uma criança o que é o Natal (como fiz agora com meu sobrinho) e ele responderá algo como: “O Natal é um dia em que o Papai Noel traz presentes”.
Capitalismo. Time is money.
Natal: Com um pouco de pesquisa, descobre-se que a data foi instituida como mero marketing de forma a atrair os pagãos à religião Cristã. Então, não seria de estranhar que esta data fosse meramente marketing de vendas até hoje.
Anderson Reginaldo
Muito bom! lamentablemente mis conocimientos de portugues no dan para mas, asi es que el resto va en español!
Buenisimo! Cambiando algunas fechas, creo que este artítculo bien podria referirse a Argentina tambien.
Un 9 de Julio, todas las casas de todos los pueblos y cuidades tenian una bandera blanca y celeste flameando en el frente… lamentablemente nadie lo hizo por la fiesta patria… era la copa del mundo en Alemania y nuestra seleccion jugaba entonces. Que vergüenza! Al año siguiente, muy pocos se acordaron de poner la bandera en el frente de la casa.
Las ideas de independencia y patriotismo necesitan de un mejor marketing.
Tanto tus articulos como tus podcast son geniales. Los disfruto muchisimo!
Besos
Fala Christian, realmente é decepcionante o nível em que chegamos. Capitalizar as emoções… isto é demais ridículo… e pior, se você quiser pular fora desta, prepare-se! Será condenado e chamado de sem-coração!
Na minha modesta opinião, estes dias são importantes para que dentro de cada um haja uma reflexão, um momento de pensar no significado que marcou a história e de algum modo sobrevive (ou não) ao tempo.
A indústria se aproveita deste momento de “fraqueza” ou emoções à flor da pele e fisga sua emoção com algo produzido em série, frio, sem sentido algum… mas nós, somos culpados… nós damos sentido à coisas sem sentido… e depois, sentimos peso na consciência em abandonar este hábito capitalista, pois parecemos insensíveis pelo simples fato de considerarmos um abraço sincero e palavras sábias algo de menor peso que uma caixa de chocolate industrializado, cheio de gorduras trans, que inclusive irão fazer mal ao homenageado…
Porque não uma carta? Porque não um arranjo de flores feito por nós? Simples, com alguns defeitos, mas original e com carinho! Porque não um poema? Que tal uma conversa gostosa e inteligente, sem tempo para acabar? Cadê o HUMANO nos presentes?
Nós somos responsáveis por isto. Nós “enterramos” nossos sentimentos e as coisas feitas com carinho e as trocamos pela praticidade, a conveniência, a rapidez de ir até uma loja e comprar um presente que tenha um PREÇO que faça jus ao que PENSAMOS que sentimos pela pessoa…
Olha, tenho vergonha disso tudo… e tento fazer a minha parte quebrando estas regras, mas reconheço que o “SISTEMA” lhe empurra fortemente neste sentido… Cabe a cada um fazer sua força contrária…
Grande abraço e continue com seu trabalho maravilhoso. Quem sabe alguns despertem com estes pensamentos?
Até a próxima.
Fazzane meu velho amigo, por favor me passa seu e-mail para eu entrar em contato.
Não sei como te encontrei aqui, mas fiquei muito feliz !
Aliás belo comentário.
Abraço.
André Formigari.
É, meu amigo, é complicado. quase utópico a julgar pelo frenético e inescrupuloso CAPITALISMO, esse que decapita-nos todos os dias do ano.
Mas acho, tenho certeza, que fazemos nossa parte ao falar aos quatro ventos que esta porcaria toda está errada. Um incêndio começa com uma fagulha.
É o que espero da blogosfera no Brasil, que tenha voz ativa e séria para, senão acabar (sonho) com tanta ridicularidaes, ao menos conscientizar as pessoas deste animal chamado CAPITALISMO.
Um abraço, Christian.
Cada tempo tem seu mandatário, caro Christian. Antes tínhamos uma semana inteira santa, hoje só a sexta feira. A igreja católica já não manda tanto assim. Por outro lado o carnaval se expandiu em micaretas diversas. E temos os heróis que devem ser reverenciados, as mães (pais não têm lá muito prestígio). O comércio tem o dia do comércio, a indústria dia da indústria, o trabalhador dia do trabalhador (quando nenhum deles trabalha).
lá atrás, por volta do ano 1.500 Deus mandava em tudo através da Igreja Católica. Hoje manda o deus Mercado.
Por volta de 1.500 ninguém pensava que o mundo podia mudar: Crianças viviam como os pais, avós, bisavós viveram.
Hoje também é assim, mas vai mudar.
História é bicho preguiça, rapaz.
Primeiro, quero dizer que gosto muito do seu podcast e isto é a primeira vez que eu escrevo aqui. Eu posso assegurar que aqui nos Estados Unidos os dias feriados são piores. Por exemplo hoje é o dia de Thanksgiving para comemorar a ajuda que os nativos deram aos primeiros imigrantes ingleses, Mas agora todos os politicos falam que temos que acabar com os imigrantes “ilegais” esquecendo o passado. E além de isso este dia de Thanksgiving indica o começo da estação de fazer compras para o Natal. As lojas vão abrir muito cedo amanhã, algumas as 4 horas da manha, e outras a meia noite mesmo. Todos os feriados aqui são oportunidades para vender coisas. Obrigado por todos o seu trabalho, Christian.