12/04/09 Christian Gurtner

Dialética, a arte de discutir

Dialética - a Arte de Discutir

Estátua de Sócrates na Academia de Atenas

dialética
di.a.lé.ti.ca
sf (lat dialectica)1 A arte de discutir. 2 Argumentação dialogada, segundo a fílosofia antiga. 3 Teoria hegeliana segundo a qual no universo tudo é movimento e transformação e as transformações das idéias determinam as transformações da matéria

Eis aí a palavra que define algo que todos fazemos – ou tentamos fazer: discutir, debater!

Em poucas palavras – e sem palavrório – vamos entender o que é a tão essencial dialética:

Caminhando de mãos dadas com as diversas linhas filosóficas, a dialética teve Sócrates como pai – ou Zênon (não se sabe ao certo) e nada mais é do que o conceito essencial para toda a criação humana e sua evolução intelectual.

Desde que o mundo gira habitado por animaizinhos com os cérebros um pouco mais desenvolvidos que o nível de segurança permite, a discussão, presente em todas as formas de comunicação humana, foi essencial para a humanidade descobrir, criar e compreender o mundo e o universo. E tudo isso se tornou mais claro quando Sócrates – ou Zênon – conceituaram a arte de discutir.

A dialética é composta de três elementos básicos: a tese, a antítese e a síntese. Onde a tese se resume na palavra inicial, no assunto em questão; a antítese vem logo em seguida como uma oposição à tese e o resultado dessa argumentação é a síntese. Complicado? Vamos desenhar:

Tese: Eu digo para você que o mundo é azul, pois vi uma foto de satélite que mostrava a imensidão do mar.
Antítese: Você me diz que não concorda, pois viu uma foto, diferente da que eu vi, onde pode-se ver muito verde.
Síntese: Vendo as duas fotos, percebemos então que o mundo é azul e verde e unimos nossas opiniões em uma só.

Contudo, a dialética é um ciclo eterno. Nossa síntese é transformada novamente em tese quando uma terceira pessoa apresenta uma antítese à ela. A antítese, no caso, é a opinião de que o planeta possui desertos, nuvens e montanhas vulcânicas que, pela imensidão, tornariam-se, claramente, visíveis do espaço. Concordando com essa pessoa, formaríamos mais uma síntese de que o mundo é azul, verde, branco e marrom. E essa síntese pode novamente virar uma tese e assim por diante…

Essa foi uma forma grotesca de explicação, mas espero que tenha sido compreendido. E, olhando pelo exemplo acima, fica fácil enxergar uma extrema beleza na dialética, no debate humano que estrutura nossa eterna busca por respostas, compartilhando opinião e conhecimento para construir nossas torres de sabedoria.

Mas nem tudo é um mar de rosas. A arte de discutir monta um ciclo infinito e, portanto, sempre mutável. Nossas “irrefutáveis” sínteses de hoje podem se tornar frágeis teses amanhã: “a terra é plana”, “a terra é o centro do universo”, “existem vários deuses”, “existe somente um deus”, “solitárias são um excelente remédio de emagrecimento”, “o homem não pode voar”… quem nos garante que nossas certezas de hoje não serão descartadas num futuro próximo?

E essas “certezas” acabam deixando a dialética de lado. O mundo está repleto de “donos da verdade”, e essas pessoas matam, intimidam, e arrasam civilizações para impor sua opinião como verdade. Mas num conceito mais pacífico, nas próprias discussões, vemos a imposição de opiniões. Faz parte de nossa natureza ou talvez da nossa cultura, mas está presente, sempre presente, a necessidade de “ter razão”, o medo de se ferir o orgulho ao ser contrariado; a vergonha, estruturada em nossa estúpida preocupação de como somos vistos pelas outras pessoas ao presenciarem nossas “teses”sendo derrubadas por “antíteses” alheias.

Não somos obrigados a acatar a opinião contrária, mas devíamos – e isso é muito difícil – compreender em que nosso opositor se baseou para chegar àquela opinião e, assim, com certeza, aprenderíamos muito mais, debateríamos de forma mais saudável, acrescentado conhecimento e compreensão à nós mesmos.

A Erística

Com a já citada necessidade de “ter razão” os debates muitas vezes deixam de ser acontecimentos enriquecedores e se tornam uma batalha. É aí que entra o “lado negro” da dialética, que podemos exemplificar bem com a Erística.

A Erística é a técnica de debate onde não se busca um consenso ou a “verdade” mas, simplesmente, vencer a discussão. Bem resumido em “Vencer um debate, mesmo sem ter razão”. Éa vitória a qualquer custo.

Já elaborada na Grécia antiga e bem definida no tratado de Schopenhauer intitulado “A Dialética Erística”, essa técnica de debate se tornou um dos alicerces de nossa sociedade. Tiranos, charlatões e até mesmo grandes filósfosos a utilizaram para movimentar as massas.

Vejo a Erística como a energia nuclear da dialética: pode ser usada para o bem ou para o mal.

A fútil guerra de egos

É muito difícil para nós, reles animais, abandonar certos conceitos, certos instintos e, principalmente, o orgulho – Lembram-se que já foi permitido “matar pela honra”? Perguntem aos seus pais/avós.

Para o crescimento intelectual, humano e social, é necessário abrirmos mão de muitas coisas – desnecessárias, diga-se de passagem – para que consigamos dizer naturalmente “eu errei”, “eu não sei”, “poderia me ensinar?”.

A dialética se mostra bela e fundamental para nós, como espécie coletiva que busca o crescimento. Mas é preciso aceitar que ela é eternamente mutável. É preciso ceder ao fato de que se lhe aplaudem hoje pela sua opinião, amanhã poderão lhe contradizer e, dependendo, você precisará aceitar, abrir mão do obsoleto para agregar idéias alheias. Tudo isso só te fará bem. Mas ao se chocar com mal, com o banal e com o errôneo, debata! Muitas vezes você descobrirá que estava errado em considerar aquilo banal ou simplesmente apagará um pouco da banalidade. Basta que todos saibamos discutir, usufruir e nos enriquecer com essa maravilhosa arte.

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Sobre o autor

Christian Gurtner Escritor, pesquisador, estuda sobre história e mistérios e é piloto comercial de aviões. Fundador e editor do Escriba Cafe (Siga o autor no Twitter).

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  • Angela

    Ninguém gosta de admitir que errou, ou dar o braço a torcer, no fundo, mesmo quando está lá, preto no branco, uma parte de nós espera, e tem sempre esperança de ter razão, e não o outro. Mas há limites, mesmo eu sendo orgulhosa chego a um certo ponto e atiro a toalha ao chão. Posso dar luta e defender o meu ponto de vista, mas quando as evidências são claras, rendo-me. Acho que é a única atitude a tomar.
    Mas claro que há sempre quem queira desafiar a lógica, e leva a sua ideia e teimosia até á exaustão, até que alguém desiste e abdica da sua razão para calar o outro.
    O que dizer Christian, errei. Peço desculpas a todos que freqüentam o blog e principalmente a você Christian. Este episodio vai ficar marcado para mim. Realmente aprendi muito.
    Não tenho mais palavras a não ser me desculpar.

    “Os que muito falam, pouco fazem de bom ”
    “Ricardo III” : Shakespeare , William

    • http://www.escribacafe.com Christian Gurtner

      Não há do que se desculpar.. pelo contrário! Grande abraço!

    • http://www.youtube.com/user/Hugovillella?gl=BR&hl=pt Hugo Víctor

      Parabéns… que prazer é ver este nível de discussão… quanto tenho que apreender! Obrigado

  • Felipe Maricato Moura

    Meu deus esse post foi necessário eu não consigo acreditar que foi.

    Grande abraço a todos que vivem o escriba.

  • Maria Angela Melato

    Oi Christian,

    Bem o post foi muito bem vindo. E precisava dele sim. Tem pessoas que se julgam muito poderosas atrás de um pc e saem por ai destilando sarcasmo e ironia em vez de discutir as idéias. Serviu para mim e outros I….E….. que andam por aqui.
    Tem uma primeira vez para tudo na vida. Aprender a debater é uma delas.

    Valeu

  • Mario 5

    Muito interessante, ainda mais dentro do contexto em
    que foi escrito. Aprendi algo hoje. Obrigado.
    Mario 5

  • Gadiego

    Este post foi muito bem colocado e bem informativo, gostei bastante.
    Um post com um ótimo aprendizado…..

    Abraços a todos.

    No mais, nada mais

  • http://e-amigacarol.blogspot.com Carolyne

    Oi CHRISTIAN, sou nova aqui no ESCRIBA CAFE e apesar de já ter lido aqui algumas poucas discussões ( principalmente pelo fato de não ter lido tudo…ainda) eu achei muito interessante esse post pelo que vivo no dia-a-dia. As pessoas com quem convivo são muito donas da razão… e achei o máximo isso ter um nome.
    Que seja um Post pra quem PRECISA realmente ler. Eu já fiz a minha parte hehe.

  • http://patux.com.br Patux

    Bem escrito e EM TEMPO!! Posturas assim são admiráveis, meu caro!! O caminho é esse… aprendi apanhando!! hehehe…

  • JB Paranhos

    No Brasil “é proibído” ter opinião diferente do senso comum…

    quando se fala mal de algo (ou alguém), normalmente é raro alguém entrar na discussão para defender, e se entrar na discussão com opinião contrária, em pouco tempo é motivo de agressões verbais e ou motivo de “chacota”…

    esta é a cultura do Brasil:
    os discordantes são sempre proscritos da discussão…

  • Ivan

    Olá Christian

    Concordo com você de cima a baixo em seu texto e como já disse antes estou aqui aprendendo, esse post em particular me ensinou muitas coisas interessantes, principalmente como debater com melhor qualidade :), espero que você tenha outras oportunidades de falar sobre filosósofia e dialética aqui ;). Gosto muito de comparar opiniões mas como disse a Angela mesmo defendendo minha opinião com todas as armas que eu tiver ( tacape ou Nuclear ) não preciso vencer a qualquer preço.
    @Maria angela
    Pode escrever meu nome sem reticências se era nele que estava pensando você está certa o texto serve para mim também, se não era desconsidere a observação.

  • IVAN

    E uma frase para pensar
    “Éque os homens em geral julgam mais pelos olhos do que pelas mãos, pois todos podem ver, mas poucos são os que sabem sentir. Todos veem o que você parece ser, mas poucos sabem o que você é realmente…”

  • Felipe Bonifacio

    Muito bom o seu site!

  • Diego Bueno

    Christian, vc tá vivo?

    Aguardamos ansiosos pelo próximo capítulo do podcast! eheh

    abs

  • http://uaigeek.blogspot.com Angelo Marcondes

    Apesar não ter acompanhado a discussão eu adoro uma principalmente um debate ou um jogo de questionamentos.
    Gostei do artigo e vou recomendar a amigos.

    Abraços

    Angelo

  • Ari

    Adoro seus artigos!
    Adoro tb a humildade!
    Émuito bom estar aqui* !

  • Angela

    OI Christian,

    Ich bin hungrig nach Kultur.
    Bald wieder!!!!!
    Vermisse dich

    Angela

    • http://www.escribacafe.com Christian Gurtner

      Heil Angela! Warte bis morgen… Danke für der kommentar. Grüss

    • HILTON A. DOS SANTOS

      Adorei seu comentario, ele fez com que eu observace as coisas de outra maneira

    • Vampirona2022

      observasse

  • http://alexdemiranda.blogspot.com Alex de Miranda

    Já faz um mês que este post foi públicado, mas preciso comentá-lo. A dialética está presente em tudo o que vivemos, e foi muito bom ler sobre ela aqui, num blog que eu cai de paraquedas. E é engraçado, pois depois que ouvi esta palavra pela primeira, no livro a Dialética do Esclarecimento, ela continuou a me perseguir em tudo o que faço. Confesso que me fiz perseguido, pois o assunto me instigou muito. Depois de Ler Tom Capri e sua Miséria da Ciência então, ficou mais impactante. Eu busco a dialética nos meus feitos, mas as vezes sinto um bloqueio, talvez por tanto buscá-la e não simplesmente deixá-la fluir. Enfim, realmente não sei. Talvez essa aceitação da dialética me fez concordar com muitos pontos de vistas e me fez esquecer dos meus, um bom exemplo de que o excesso nunca é bom.
    Abraços.
    Visitarei mais vezes.

  • Ivan

    Olá Christian!
    parece que aquele post que te motivou a escrever este ainda está gerando frutos e sementes de ódio, não me leve a mal, não quero polemizar, desta vez , mas a ver forma agressiva como algumas pessoas reagem a uma discussão, saindo da argumentação para o ataque pessoal é triste de ver, mesmo que a outra parte tenha começado de forma agressiva, não vejo como justificativa para continuar e incentivar essa forma de debate.
    Não sou um anjinho e já tive minha cota, mas ver as pessoas persistindo no erro e tão estranho…

  • valter

    Exelente artigo!

  • Aduardo-atitude

    Justo é aquele que na sua tese se alto comtradis pela sua dialetica conhecer ati mesmo
    e conhecer sua antitese otimo artigo.

  • Rodrigo Rocha

    A partir do momento que voce tem consciência que tua idea e só mais uma… a partir do momento que voce exerce senso critico sobre tuas próprias opiniões e ve que mesmo voce tendo uma fictícia “certeza” do que diz, ainda pode estar errado, voce faz um mundo melhor.
    Se todos tivessem essa concepção… talvez nao teríamos guerras… nao teríamos intolerâncias religiosas e nem sexuais.

  • Rodrigo Rocha

    Mais artigos da categoria “Mente Humana” por favoor … To viciado ;D

  • Junior Moura

    Olá christian! Apesar de tanto tempo eu não pude deixar de comentar. Sua sutileza e precisão neste artigo. Mostrou com uma sensibilidade de poucos. O que importa na discussão é o que tiramos de bom. Sem se importa com os meios e os lucros pessoais. Adorei o artigo! Essa é a primeira vez que posto um comentário, mas já vou pedindo desculpa se houve algum erro. E se houver, me ensine! Kk há já ia esquecendo, está na hora de atualizar o pod cast.

  • http://www.facebook.com/LucasRuizRdaS Lucas Ruiz R. Da Silva

    Não pude deixar de comentar. É um cuidado que todos nós precisamos ter, independente do grau de conhecimento que possuimos. Uma discussão não é uma batalha, mas sim um ato de aprendizagem. Muitos amigos meus são prepotentes e isso faz com que se perca a vontade de discutir afinal a pessoa nunca irá aceitar uma ideia sua por mais que seu argumento seja mais forte ou não, ou então, pelo simples fato de levar em consideração alguma coisa. Parabéns.

  • Carina

    Estava procurando uma boa explicação sobre dialética e com certeza encontrei. Muito obrigada.

  • Divaldim

    Divaldim Lima
    A descoberta do sentido da dialetica foi muito interessante. Pois, assim encontramos algumas razões para discorda e questinar o que é posto na história como uma verdade absoluta do ponto de vista de quem a escreveu. E as razões da existencia de diversas formas de verdade como na religião, na cultura, na economia, e nos diversos pensamentos e seguimentos sociais.

  • Wagninho

    Bravo!!! Muito ensinamento me foi passado na leitura desse texto. Já não sou mais o mesmo

  • eu

    parabéns pelos desempenho dessa pagina , gostei muito….. me ajudou bastante para meu desempenho …….. obg, tchau amo vcs !!!!!!!!! seus gatos

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