
Em busca de um culpado
Um acidente aéreo termina em tragédia. Mortos: 154. Seria somente mais um dia comum na aviação internacional se não fosse por um detalhe: havia outra aeronave envolvida, onde os pilotos conseguiram aterrissar em segurança! Pronto, é tudo o que a mídia sensacionalista e a massa ignorante precisavam para ter alguém que pague por isso.
Já não suporto mais ouvir a palavra Transponder nos telejornais. Vejam como esse aparelho, antes desconhecido da maioria do povo, se tornara a arma utilizada pelo piloto sobrevivente para assassinar 154 pessoas. Assassinar?. Os pilotos americanos (que pilotavam o outro avião) estão presos em um hotel de luxo. Não querem sair. Têm medo de serem linchados na rua por uma massa revoltada.
Não me admira que os parentes da vítimas estejam em qualquer grau de revolta. É um sofrimento imensurável. O desespero pela busca de um culpado é muito comum nas pessoas que são diretamente afetadas pela morte de um ente querido. Uma busca sem sentido, porém. O que realmente me admira é o povo, aquele velho povo que seguia as execuções em praça pública com ódio, sem nem sequer saber o motivo pelo qual o executado fôra condenado, estarem carregando um ódio pelos pilotos americanos. Querem um culpado por essa tragédia, e sabem (mesmo sem saber) que os culpados foram os americanos.
Fico imaginando esses dois pilotos-réus-do-povo, no dia em que decolaram. Um virou-se para o outro e disse: “E então, vamos derrubar um 737 ou um 747 hoje?”
Esses dois homens têm uma grande chance de serem condenados por homicídio culposo, fazendo com que mais duas famílias fiquem temporariamente orfãs. Esse tal de “homicídio culposo” é realmente a prova de que o ser humano não se conforma com nossas naturais fatalidades e sempre deve haver um culpado para que o ódio destinado à ele nos faça tentar, inutilmente, esquecer a dor de uma perda.
Nesse caso temos uma fatalidade maior: Pessoas de todas as partes, assistindo às notícias, criam um certo ódio por esses pilotos. Muitos querem linchá-los. Mas porque não tem ninguém na porta da FEBEM esperando o tal do Champinha (ou sei lá o nome) sair para linchá-lo? Talvez seja porque ele fez algo comum em nosso cotidiano: estuprou, matou cruelmente e ainda se gabou disso. Ou talvez seja porque todos, inclusive a mídia, já se esqueceram disso. Memória curta, não é mesmo? O que importa é que o culpado foi achado.
No caso do vôo 1907 da Gol, o culpado ainda não está definido. Talvez seja esse o problema. Arrumem logo um culpado, para que assim, o povo esqueça disso e arrume uma outra bruxa para queimar.
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Concordo plenamente com tudo o que foi dito. A mídia foi feita para ignorantes (que muitas vezes, infelizmente, nos atinge também), para pessoas que passam a acreditar no que a elas é colocado. A mídia forma opiniões, forma convicções e principalmente, forma seguidores da burrice e da ignorância. E quantas vezes ja nao fomos atingidos pela burrice e pela ignorância?? Coitados de nós…
hummm… sei que não há provas conclusivas ainda, mas ao que se sabe, os “experientes pilotos americanos” sabiam do risco de não seguir o plano de vôo, e ao faze-lo assumiram as consequências. Da mesma forma um motorista alcoolizado é condenado por homicídio culposo por ter consciência do que fazia e não por ser acidente o fato dele perder sua habilidade de direção.
É preciso primeiro provar para depois acusar, mas tenho achado importante a pressão da mídia, mesmo com dezenas de especulações tolas acabam impedindo que haja “panos quentes” em situações sérias.
Crítica bem feita , observações pertinentes , equilibrio nas suas avaliações. Muito bem! E infelizmente , verdadeiro o quadro pintado em relação a falta de memória do brasileiro , a injustiças cometidas (febem) e uma história que não cansa de se repetir…