10/06/07 Christian Gurtner

Fator Quebra-Mola

O Brasil e as lombadas

Imagem criada por Zap para esse post

Quem não conhece o chato e velho “quebra-mola”? Também chamado de “lombada” ou “ondulação-transversal” em algumas regiões do Brasil. A função teórica desse obstáculo do trânsito é muito simples: obrigar o motorista a diminuir a velocidade. Mas obrigar como? Da seguinte forma: ou você pára ou seu carro já era. Ná prática é diferente: a sinalização é péssima, os quebra-molas têm, muitos, tamanhos e formas absurdas (quase um muro) e você muitas vezes só descobre que existe um quando já está passando por cima, destruindo seu carro e colocando sua vida em risco. Sim, quebra-molas matam.

Mas porque estou falando disso? O motivo é o seguinte: ao pensar bastante sobre a existência do quebra-mola e sua função, concluí que o quebra-mola é mais que um obstáculo. Ele é um símbolo. Um símbolo tão forte e coerente com nosso país, que acho que deveria ser impresso na bandeira do Brasil. Quebra-mola para o novo símbolo nacional, já!

Para entender isso, vamos à simbologia. Quebra-mola é uma exclusividade de países sub-desenvolvidos, e o Brasil, com certeza, é o líder absoluto em quebra-molas. Alguns países mais ricos, têm também, contudo são somente o que conhecemos como “sonorizadores”, que só servem para alertar o motorista e não representam nenhum risco para o carro ou para a vida. Mas no Brasil é diferente. Os brasileiros não cumprem as leis de trânsito; as autoridades do trânsito são sangue-sugas e incompetentes, e os quebra-molas são os únicos que, através de uma espécie de ditadura, conseguem fazer a lei ser cumprida.

Pesquisando pela internet sobre os quebra-molas, descobri um artigo de Bob Sharp onde ele diz que o quebra-mola “Éum recurso burro e antinatural para reduzir a velocidade do tráfego”. Concordo, e digo mais: isso reflete toda a realidade brasileira, tanto o quebra-mola, quanto a definição do sábio Bob.

O Fator Quebra-Mola (FQM), que é como chamaremos essa simbologia agora, pode ser aplicado em toda e qualquer situação política ou social do Brasil. Tentarei ilustrar:

Imagine um motorista. Ele está numa estrada onde o limite de velocidade é de ridículos 30km/h. Obviamente ele vai dirigir entre 60 e 80km/h (isso se for um motorista MUITO prudente, pois os mais “comuns” vão estar a 100 ou 120km/h, pois nossa sinalização de trânsito, tanto quanto os limites de velocidade, deveriam ganhar o prêmio de melhor piada do século). Esse motorista vai se deparar com um quebra-mola que o obrigará, então, a diminuir a velocidade. A questão é que, logo que passar pelo quebra-mola, vai se deparar com a pista livre e aumentará a velocidade de novo.

Agora vamos aplicar o FQM: Um político corrupto é preso pela Polícia Federal (que tem se mostrado muito competente), fica alguns dias preso, é interrogado, monta-se CPI ou julgamento, ele é absolvido e logo já está exercendo seu papel de ladrão transvestido novamente.

Deu para entender? Polícia = Quebra-mola; Judiciário/CPI = Pista livre para acelerar de novo.

Esse é um exemplo entre milhares. Aplique o FQM em qualquer coisa do Brasil que você verá como é “impressionantemente” certo.

Agora me veio a idéia de que a polícia, principalmente a militar, é bem parecida com o quebra-mola mesmo: se diminuir e passar com cuidado, tudo bem, mas se passar por cima, vai se arrebentar (com sopapos, abuso de autoridade, cacetete, etc.). Mas justiça seja feita: já vi muitos policiais competentes e sensatos, contudo, nesse caso, eles são atropelados pelo judiciário, pelos baixos salários, pela impotência de manter um prisioneiro preso e, no final das contas, todo mundo se f*** (é a única palavra que define isso, desculpe), menos os criminosos.

O FQM também se aplica na educação: O aluno acorda, vai para aula do ensino público e se depara com professores mal-pagos, mal-amados e com ordens de aprovar todo e qualquer aluno burro ou ignorante para que o índice de reprovação seja baixíssimo nas estatísticas para as próximas das eleições. O que impressiona é que muitos desses professores se recusam a educar marginais, e querem REALMENTE EDUCAR. E é aí que o professor se torna o quebra-mola dos alunos que, sem estímulo da sociedade e da mídia para adquirir conhecimento, vêem aquilo como uma obrigação chata e, logo que toca o sinal, vão embora correndo para assistir Malhação, Big Brother, Gugu, Faustão, e outras porcarias populares.

Observando o FQM de forma mais generalizada, podemos ver uma ampla e triste variedade de aplicações. O quebra-mola, no trânsito, é a consequência de um país mal-governado, mal-habitado e mal-educado. Não se consegue – eu diria “quer” – educar e impor limites, então usa-se um tosco quebra-mola para ameaçar a vida e o patrimônio do cidadão, que são as únicas coisas que parecem respeitar. E, assim, o FQM é aplicado em tudo: ao invés de educar, cria-se cotas racistas nas universidades; ao invés de fazer boas estradas, prega-se placas com limites de velocidade ilusórios; ao invés de prender, abre-se espaço para as empresas de segurança particular; ao invés de punir corruptos, abafa-se o caso para a população não se sentir ferida; ao invés de criar vergonha na cara e não fazer sexo em praia pública, manda-se bloquear o YouTube… e por aí vai…

Mas quem se importa? Enquanto houver bunda, futebol e carnaval, deixa o resto prá lá.

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Sobre o autor

Christian Gurtner Escritor, pesquisador, estuda sobre história e mistérios e é piloto comercial de aviões. Fundador e editor do Escriba Cafe (Siga o autor no Twitter).

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  • Fernando Fazzane

    Impressionante Christian!

    Realmente, nunca havia feito esta analogia. Mas ela é perfeitamente cabível.

    O povo é o grande responsável pela situação da educação em nosso país. Ele cobra que o político seja honesto, mas o próprio não o é! Se ele pode conseguir uma forma de se aproveitar de uma situação, por mísera que seja (estrada livre) ele faz com a proteção de que “todo mundo o faz”, “se eu não fizer, outro o faz”, “o mundo é dos mais espertos…”

    Isto é a coisa mais triste que pode acontecer com uma nação. A banalização do correto, do ideal, do bom, do socialmente próspero.

    Enquanto a maioria olhar somente para o próprio umbigo, nós não sairemos da lama e ficaremos nos debatendo feito crianças disputando brinquedos das mais variadas espécies…

    As pessoas vêem na possibilidade de cometer “pequenos delitos” porque usam a desculpa de que “ninguém é santo”, ou “não serei o único bobo a cumprir a lei”… Eu protesto!

    Na estrada mesmo, um ótimo exemplo… Eu sempre respeito os limites de velocidade por duas razões: Não quero ter problemas com policiais escondidos com suas armadilhas móveis à espera de um apressadinho; Sei que se eu estiver dentro do limite, a chance de conseguir me safar de algum imprevisto é maior.

    Mas tudo seria lindo se não houvessem uns que não se contentam em respeitar a sinalização e costuram o tráfego a mais de 160km/h com suas famílias dentro dos carros, crianças, carros nem sempre novos, caminhões que pedem ultrapassagem e “ai” de quem não sair da frente!

    Para que isso? Para chegar em algum lugar 5 minutos mais cedo? Para sentir adrenalina ouvindo o barulho do motor em alta rotação? O vento? Ou o próprio medo? Porque não saltam de pára-quedas, andam de kart, fazem rapel, ou algum esporte? Colocam em risco suas vidas e muitas outras que cruzarão seu caminho levianamente….

    Mas isto é só um exemplo… Como alguém com esta conduta, pode criticar um político corrupto? Um criminoso? Um assassino? Como?

    Ele se dá o direito de descumprir as leis (mesmo que falhas) de igual maneira!

    Bom, valeu a reflexão e espero que a humanidade não se canse de refletir sobre estes conceitos.

    Grande abraço e uma ótima semana a todos.

  • http://www.rossopomodoro.podcastbrasil.com Vito Andolini

    Pois é! Tinha tocado neste assunto, de leve, lá nos saudosos “Tristes Trópicos” do Rosso Pomodoro, há pouco mais de um ano. “Tempus fugit”.

    Foi bom você ter desenvolvido com mais gana essa história maluca dos quebra-molas.

    Abraço

  • http://catarse.co.nr Bruno

    Texto muito bom, realmente o quebra-mola simboliza bem o modo das coisas ou até mesmo o nosso “jeitinho”.

    Contudo, acredito que o trecho sobre a educação pública não foi muito feliz, pois alunos “burros e ignorantes” são fruto do próprio sistema e não são seres irrecuperáveis que caem do céu nas salas dos professores mal-amados (aqui eu diria “desestimulados”, embora talvez falte amor ou, no mínimo, consideração para com eles).

    E, apesar da TV aberta ser, à seu modo, algo tão preocupante quanto a desigualdade social e outros problemas (você citou o piores programas mesmo), seria ligeiramente mais interessante (note, *ligeiramente*) se essas crianças de fato fossem assistir televisão e não se envolvessem com questões um tanto piores (sim, à longo prazo estas mesmas crianças estariam extremamente idiotizadas e tal, mas, infelizmente, acontece…).

    Enfim, é um texto bastante interessante.

    • http://www.escribacafe.com Christian Gurtner

      O que você disse sobre “burros e ignorantes” foi exatamente o que eu tentei dizer. São burras e ignorantes por causa da sociedade que assim as quer.

      Obrigado pelo comentário! Grande Abraço

  • http://img507.imageshack.us/img507/4821/lombadrasilxo3.jpg Zap

    Gostei da ideia! Fica perfeita na Bandeira!
    http://img507.imageshack.us/img507/4821/lombadrasilxo3.jpg

    • http://www.escribacafe.com Christian Gurtner

      Muito bom. Adorei rsrsrs. Que tal colocar a esfera atrás para ficar mais parecido.. ou talvez até balancear as cores para ficar mais nítida a placa… assim estendo essa bandeira no Escriba :-)

      Muito bom!

      Abraços e obrigado!

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  • Yago

    Cara, parei. Você falou toda a verdade são apenas burros e ignorantes FQM quer destruir os carros e nossas vidas nunca parei para analisar isso mas é isso mesmo

  • Pingback: A CEMIG e o meu podcast « Escriba Cafe

  • http://fadinhas larissa

    eu acho melor o cu predo,cu la,cu rosa.

  • http://fadinhas larissa

    eu sou melhor do que voce eu sou cu preto.

  • Edson

    O quebra-mola é o exemplo perfeito da nossa falência como povo. Eles colocam a vida das pessoas em risco e aumentam o custo do transporte pela manutenção dos carros. As estradas foram criadas para facilitar o trafego e nós, os burros subdesenvolvidos, criamos os quebra-mola para dificultar o trafego. O excesso de velocidade deveria ter o infractor punido, como não conseguimos fazer o obvio, nós punimos todo mundo colocando o quebra-mola. Crianças são atropeladas, ao invés de punirmos os pais irresponsáveis, colocamos quebra-mola. E pra terminar: Éengraçado que no Brasil todo mundo acredita em livre-arbítrio, mas, quando as coisas estão erradas a culpa é sempre do sistema. Querem um exemplo: como o ensino vai mal a culpa é do sistema, nunca dos professores que são incompetentes, nunca dos alunos que são preguiçosos ou dos pais que são relapsos.

    • weltonvivan

      sem cooomentaris

  • rafael

    tenho 19 anos ,e eu odeio meu pais ,daqui a uns 20 ou trinta anos quando toda a geraçao de politicos atuais estiverem devidamente mortos espero que a juventude de hoje nao cometa os mesmos erros atuais ao assumir a cargos de gestao.isso se os parentes dos politicos nao assumirem os cargos é claro.gostaria de sentir amor a patria, mas acabo amar mais outras sociedades do que a nossa e falo sem receio :EU QUERIA SER AMERICANO pois dai teria alguma diginidade

    • Delmanto

      Cuidado Rafael, seu país é muito mais do que o governo que o controla. Entendo o seu ponto de vista, mas talvez seja por isso mesmo que as coisas não dão certo (não colocando a culpa em você, apenas dizendo que se todos pensarem assim é que não vamos a lugar algum). Não vamos confundir nossa identidade brasileira com esses idiotas que supostamente governam por nós.

      Eu amo meu país por ser a minha casa e da minha família junto com meus amigos. E sinceramente, não fosse esse governo pornograficamente corrupto, certamente seria um dos melhores países do mundo para se viver (tal como a Austrália).

      Émuito fácil gostar dos países que já deram certo, difícil é fazer o nosso chegar lá.

      Um sincero grande abraço!

  • Genival

    De Belo Horizonte a São Paulo são 600 km Rod. Fernão Dias nenhum quebra-mola. De minha cidade Valente-Ba para Feira de Santana-Ba. 51 quebra-mola.
    Foi feita uma lei pra tirar os quebra-molas já existentes e estão triplicando em todo o país.
    As rodovias foram feitas pra os carros, pra incurtar distâncias e o povo é quem quer caminhar nela. daquí a poucos anos os veículos nãi terão mais serventia no nosso país. Pois não vão mais poder sair das garagens. ISSO ÉUMA DEMOCRACIA OU UMA ANARQUIA?

    • junior

      o irmao pior e aqui na capital baiana nos bairros a cada 10 ou 50 metros se encontra um quebra mola , o povo mal educado e anarquista faz quebra por conta propria quando bem querem. e os politicos permitem pois sem os votos dos ignoranes eles nao se reelegem. e assim vai. hoje motoristas estao tendo problemas de articulacao e muscular de tanto reduzir os veiculos.

  • junior

    aqui em salvador o fqm e um absurdo pois chega a esta a menos de 50 metros um do outro cada morador que resolve faz um na porta de casa. alegando nao ter carro os outros que se fodam.

  • VALDERLY

    E como fica a situação de uma ambulância socorrendo um doente grave precisando chegar rápido ao hospital??

  • VALDERLY

    Aqui no Maranhão a situação é gravíssima! o fqm é alto demais!! as margens das rodovias, sejam elas federais ou estaduais os moradores constroem quebra-molas (quebra-carros) sem nenhuma justificativa, apenas com o propósito de colocar bancas de frutas, venda de água mineral, etc…Que país é esse??

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