Não aguento mais ouvir todos dizerem o quanto a lei seca é boa e o quanto ela já salvou de vidas. Todos elogiam, todos reverenciam (a não ser os donos de bares e casas noturnas), mas me parece que ninguém enxerga o quanto ela é absurdamente estúpida e como ela retrata nitidamente a fraca e irresponsável cultura governista brasileira.

Primeiro deixemos claro o quanto eu realmente aplaudo os resultados imediatos dessa lei (se é que as estatísticas são verdadeiras). Sou totalmente a favor de não deixar os bebuns dirigirem. Mas o meu protesto começa com uma simples pergunta: Foi a mudança na lei que diminuiu os acidentes ou foi simplesmente o enorme aumento da rigidez de fiscalização?

Brasileiro tem a cabeça muito comprimida. É somente um operário, uma força braçal do governo. E isso é, talvez, a herança da ditadura onde todos aceitam as decisões burras do governo sem nem sequer tentar entender. Essa herança é passada de geração para geração e muda muito lentamente - e assim o governo agradece.

Leis nós já temos, o que não temos é o cumprimento das mesmas. Podem criar uma lei apra condenar à morte um motorista bêbado, mas ninguém vai ter medo de morrer se souber que não existe fiscalização.

Se não existisse impunidade, criminoso seria raridade.

Mas eu gostaria agora de expor o maior problema que encontrei nessa lei seca: A falta de alternativas. Pois bem, no Brasil funciona assim: se um cachorro é atropelado na estrada, vai ficar ali apodrecento com seu cheiro insuportável até que desapareça. O máximo que o governo faz é jogar algumas pás de cal por cima para ajudar na decomposição; Se aparece um buraco na estrada, só vai ser consertado - e porcamente - quando chegar a época de eleição - ou pior e mais comum, quando alguém morrer por causa do buraco; Se um separador de vias rodoviárias (aquele murinho de concreto no meio das estradas) quebra depois de um acidente, a chance dele ser ser reerguido é quase nula, mas eu já vi pintarem os restos de um - eles pintam as ruínas. Ridículo.

A Lei Seca também é assim: uma porca cura de sintomas e não de causas. A causa não é o motorista dirigir bêbado, e sim o motorista ter que dirigir bêbado porque não tem nenhuma outra opção para sair e se divertir. Aliás, tem sim: ele pode pegar um ônibus (que, dependendo da hora, demora horas para passar) ser assaltado ou até queimado dentro desse ônibus, descer num ponto que fica a 10 quarteirões do local para onde quer ir, ser novamente assaltado no meio do caminho, sair do local de madrugada e fazer todo o processo novamente para voltar para casa (E só de pensar que já existe uma enorme massa de brasileiros que vive assim há décadas, é de dar enjôo).

Essa lei, esse cuidado do governo para economizar dinheiro com ambulâncias e pronto-socorros (acredite, o governo não está nem aí pra você, ele simplesmente calcula onde pode economizar, e se isso cruza com uma falsa impressão de heroísmo, vira lei na certa) isso nada mais é do que mais uma comprovação da minha teoria do Fator Quebra-Mola.

Onde está a malha ferroviária desse país gigante para tirar os mortais caminhões das estradas, os passageiros dos perigosíssimos ônibus e das absurdamente comuns estradas precárias? E assim continuamos caminhando (e tropeçando nos buracos)…