Loucos somos nós

Por Christian Gurtner

museuloucoHá poucos dias, visitei o Museu da Loucura em Barbacena, MG, e, pela primeira vez na vida, toquei numa máquina antiga daqueles tão conhecidos tratamentos de eletroconvulsoterapia, ou “eletrochoque”.

Além disso, o local onde se encontra o museu – e hoje ainda funciona um hospital convencional -antigamente era uma “colônia de alienados”. Os antigos “dormitórios”, apesar de desativados, ainda estão lá, enfeitando o que mais parece um cenário de filme de terror. Posso garantir à vocês que já vi campos de concentração na Alemanha que, comparados com os dormitórios da colônia de alienados, são suítes de luxo.

Exibida na parede do museu, está uma carta do diretor da colônia, datada de algumas décadas atrás, enviada ao secretário de saúde, informando que o local encontrava-se superlotado e sem verbas para expansão, o que justificava a retirada das camas dos dormitórios para que, ao invés de 4 “pacientes”, coubessem 12. Não houve nenhuma ação do governo.

Apesar de o museu não ser nada de extraordinário e possuir poucos ítens em exposição (a maioria é fotos), desperta a curiosidade e um certo sentimento mórbido. Dos vários “tratamentos” que esse tipo de instituição possuía, o eletrochoque e a lobotomia são os que mais chamam a atenção, apesar de que usavam também uma certa terapia em que deixavam o paciente em estado febril e, assim, ele ficava sossegado – que opção tinha, aliás? Mas resolvi entender um pouco mais as duas terapias citadas acima e, se um sanatório de antigamente já era de arrepiar, os tratamentos estão próximos de um enredo do filme Jogos Mortais. Compartilho com vocês:

Eletroconvulsoterapia

Máquina de eltrochoqueO paciente é submetido a um choque aplicado nas têmporas, o que induz uma convulsão. A cena é horrível, o paciente se contorce grita e sente muita dor enquanto é segurado pela equipe. A reação é tão forte que, antes de levar o choque, o paciente tem que morder um protetor para não cortar a língua ou quebrar os dentes.

A terapia de eletrochoque foi alvo de muitas críticas e polêmicas, principalmente quando se constatou que os hospitais a estavam usando simplesmente para acalmar pacientes rebeldes e não como forma terapêutica, e assim afirma David Rothman, historiador médico:
shock

“A terapia por eletrochoque se destaca de forma praticamente solitária entre todas as intervenções médicas e cirúrgicas, no sentido em que seu uso impróprio não tinha a meta de curar, mas sim o de controlar pacientes para o benefício da equipe hospitalar”

Apesar de condenada no passado, essa terapia ainda é usada nos dias de hoje, mas de uma forma, digamos, “um pouco mais humana” para alguns casos em que medicamentos não surtem mais efeito.

Lobotomia pré-frontal

Controversa intervenção cirúrgica no cérebro do paciente (psicocirurgua), para “desconectar” os lobos frontais do tálamo. Os resultados dessa terapia sempre foram alvo de questionamentos e críticas, apesar de ser considerada a psicocirurgia de maior sucesso na época. Os efeitos colaterais vão desde completa mudança de personalidade até a morte. Uma pessoa “lobotomizada” normalmente fica naquele estado “sonso”, como se estivesse sedada, não mostrando reações emocionais.

zack.lobotomyLogo após surgimento da lobotomia, um médico americano “aperfeiçoou” a técnica e começou a lobotomizar pessoas com um furador de gelo e um martelo. Por ser uma intervenção rápida e barata, vários hospitais aderiram à técnica, equanto esse médico rodava os EUA “lobotomizando” pessoas com seu furador de gelo. Funcionava assim: ele colocava o furador nos canais lacrimais (isso, no olho) do paciente e martelava o furador até ele atingir o cérebro, daí começava a torcer a ferramenta para destruir aquela área cerebral. O paciente recebia uma anestesia local ou um eletrochoque antes.

A lobotomia pré-frontal nos seus primórdios é muito mal vista hoje, e, de acordo com médicos, o preconceito e a ignorância fazem com que as pessoas critiquem as psicocirurgias atuais, as quais, apesar de pouco utilizadas, os médicos afirmam estarem muito mais desenvolvidas devido ao avanço tecnológico e ao nosso maior conhecimento sobre o cérebro humano, tornando-se a única saída em determinados casos.

Na minha opinião

Creio que o cérebro é um dos maiores mistérios que temos a solucionar. As pessoas com distúrbios mentais, em nossa história, já foram vistas como demônios, hereges, bruxas, possuídos, etc. Quanto mais nosso conhecimento aumenta, mais brandas vão se tornando as definições.

einsteinA medicina hoje já não nos deixa “endemonizar” os loucos, mas ainda os chamamos de “loucos”. Contudo, estima-se que 20% da população mundial sofre de algum tipo – leve ou grave – de transtorno mental, número esse que, talvez, se tornará muito maior ou muito menor quando entendermos o cérebro por completo. Talvez não existam loucos, ou o mais provável: todos somos loucos, em maior ou menor grau. Ouçam nossos antepassados: “De médico e louco todo mundo tem um pouco”.

Para saber mais: Psicocirurgia ou Cirurgia Psiquiátrica | A História da Terapia Por Choque em Psiquiatria

Sobre Christian Gurtner

Fundador e editor do Escriba cafe
  • http://www.crussificados.com.br Danilo B.

    Excelente texto. Também já li sobre algumas pessoas que sofrem de depressão crônica e que não tiveram bons resultados com o uso de vários antidepressivos, que acabaram recorrendo a eletroconvulsoterapia. Vi um relato na comunidade Depressão no Orkut de uma menina que ia começar as sessões de ‘eletrochoque’, mas não sei se ela voltou lá para contar sua experiência, relatando se foi bom ou ruim.

    Mudando de assunto, em pouco menos de 2 meses já ouvi todos os seus podcasts, Cristian. Fiquei ‘deprimido’ quando cheguei o último, pois já percebi que vc não tem mais tempo para produzir novos podcasts.

    Uma pena, pq seus podcasts são os melhores que já ouvi.

    Abraços

  • Felipe Maricato Moura

    Nossa é loucura todos esses tratamentos heheh.

    Alguem sabe o que o Eletroconvulsoterapia realmente tentava curar? Realmente funcionava?

    Me lembro ter lido que muito antigamente os médicos usavam eletricidade para tudo e sem eficacia nenhuma tipo até para curar a tuberculose o que obviamente não funcionava.

  • Marcos

    MUITO LEGAL

  • http://raulchan.blogspot.com Raul Chan

    Gostei muito. Legal seu post.
    Acho que não exista ninguém louco, os pontos de vista é que são diferentes.

  • roberto reis

    Só uma coisa:

    Puuuutt@qqqu333p4rrrr1uuuuu

    #tenso!
    ;)

  • Marcos Valezin

    Realmente somos seres ignorantes e sem respeito algum com o próximo. Ao ler o seu texto, senti arrepios, senti enjôo, não pelo texto, que por sinal sempre é impecável e sim pelo modo do qual tratamos o próximo. Se voltarmos há mais ou menos 2000 anos, podemos verificar um total descaso pelo ser humano, eramos apenas um monte de carne e bastava um leve sinal de um imperador romano, eramos jogado aos leões para a diversão do povo. Hoje, então, não somos mais jogados aos leões e sim aos leitos de hospitais sem recurso algum, a medicos sem escrúpulos. Quando será que vamos parar e começarmos a ver um mendigo como irmão? Quando será que vamos parar de olhar para o nosso próprio umbigo? Todos somos iguais, apenas estamos em envólucros diferentes, o mendigo de hoje poderá ser o médico de amanhã, se é que vocês me entendem. Precisamos fazer um movimento que consiste no seguinte: Ajude a um irmão que assim estaremos ajudando a nós mesmos.
    Não leve esse comentário pelo lado religioso, pois cada crença tem o seu objetivo, mas pelo lado humano.

    “Somos todos iguais, porém em envólucros diferentes” pensem nisso.

    Como dempre diz o Christian, fiquem em paz!

  • Super

    Cometemos estes erros no passado.
    A pergunta é: que erros estamos cometendo hoje?
    No que toca a medicina, não me agrada a ideia de
    tentar resolver tudo com um comprimido.

    Muitas pessoas sofrem de dores terriveis por conta
    da rotina de trabalho. Qual a solução?
    Um remédinho.

    Muitas pessoas não conseguem dormir por causa
    da vida insana e da pressão que é obrigado suportar
    no tabalho. Solução. Outro remédinho.

  • Manuella

    Ainda na mão desse post, recomendo a leitura do livro “O Alienista” de Machado de Assis. Um livro fininho, rápido de ler e com uma conlusão muito interessante sobre a loucura.

  • Daniella

    Muito bom seu post!
    Eu já tinha essa opinião, e lendo esse texto agora, vejo que a melhor coisa para se dizer é que sim…somos todos loucos! =D

    Começei a frequentar este site a pouco tempo e estou realmente gostando! ^^
    Estou adorando seu trabalho Christian, parabéns!

  • Carlos Cruz

    Estima-se que 90% dos casos de “loucura” seja de mediunidade em desequilíbrio. O Espiritismo tem metodologia e ferramentas eficazes para identificar esses casos e ajudar. A Ciência materialista se baseai apenas nos efeitos, ignorando por completo (apesar de fartas provas em contrário) a existência da alma que é o centro de inteligência de qualquer ser vivo. Com isso ignora as reais causas e trata apenas da matéria com medicamentos de efeito transitório e que tende, com o tempo, realmente levar o paciente a loucura. O processo obsessivo a que todos nós estamos sujeitos pode se tornar desastroso na vida de pessoas que possuem mediunidade e não sabem lidar com a questão, podendo transformar o indivíduo em verdadeiro “flagelo humano”.

  • Rodrigo Rocha

    uai … pq toda vez que entrava na categoria “mente humana” esse post nao aparecia ? a mais enfim, mais uma coisa pra mim ler

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