Loucos somos nós
Por Christian Gurtner - 23.11.2009
Há poucos dias, visitei o Museu da Loucura em Barbacena, MG, e, pela primeira vez na vida, toquei numa máquina antiga daqueles tão conhecidos tratamentos de eletroconvulsoterapia, ou “eletrochoque”.
Além disso, o local onde se encontra o museu – e hoje ainda funciona um hospital convencional -antigamente era uma “colônia de alienados”. Os antigos “dormitórios”, apesar de desativados, ainda estão lá, enfeitando o que mais parece um cenário de filme de terror. Posso garantir à vocês que já vi campos de concentração na Alemanha que, comparados com os dormitórios da colônia de alienados, são suítes de luxo.
Exibida na parede do museu, está uma carta do diretor da colônia, datada de algumas décadas atrás, enviada ao secretário de saúde, informando que o local encontrava-se superlotado e sem verbas para expansão, o que justificava a retirada das camas dos dormitórios para que, ao invés de 4 “pacientes”, coubessem 12. Não houve nenhuma ação do governo.
Apesar de o museu não ser nada de extraordinário e possuir poucos ítens em exposição (a maioria é fotos), desperta a curiosidade e um certo sentimento mórbido. Dos vários “tratamentos” que esse tipo de instituição possuía, o eletrochoque e a lobotomia são os que mais chamam a atenção, apesar de que usavam também uma certa terapia em que deixavam o paciente em estado febril e, assim, ele ficava sossegado – que opção tinha, aliás? Mas resolvi entender um pouco mais as duas terapias citadas acima e, se um sanatório de antigamente já era de arrepiar, os tratamentos estão próximos de um enredo do filme Jogos Mortais. Compartilho com vocês:
Eletroconvulsoterapia
O paciente é submetido a um choque aplicado nas têmporas, o que induz uma convulsão. A cena é horrível, o paciente se contorce grita e sente muita dor enquanto é segurado pela equipe. A reação é tão forte que, antes de levar o choque, o paciente tem que morder um protetor para não cortar a língua ou quebrar os dentes.
A terapia de eletrochoque foi alvo de muitas críticas e polêmicas, principalmente quando se constatou que os hospitais a estavam usando simplesmente para acalmar pacientes rebeldes e não como forma terapêutica, e assim afirma David Rothman, historiador médico:

“A terapia por eletrochoque se destaca de forma praticamente solitária entre todas as intervenções médicas e cirúrgicas, no sentido em que seu uso impróprio não tinha a meta de curar, mas sim o de controlar pacientes para o benefício da equipe hospitalar”
Apesar de condenada no passado, essa terapia ainda é usada nos dias de hoje, mas de uma forma, digamos, “um pouco mais humana” para alguns casos em que medicamentos não surtem mais efeito.
Lobotomia pré-frontal
Controversa intervenção cirúrgica no cérebro do paciente (psicocirurgua), para “desconectar” os lobos frontais do tálamo. Os resultados dessa terapia sempre foram alvo de questionamentos e críticas, apesar de ser considerada a psicocirurgia de maior sucesso na época. Os efeitos colaterais vão desde completa mudança de personalidade até a morte. Uma pessoa “lobotomizada” normalmente fica naquele estado “sonso”, como se estivesse sedada, não mostrando reações emocionais.
Logo após surgimento da lobotomia, um médico americano “aperfeiçoou” a técnica e começou a lobotomizar pessoas com um furador de gelo e um martelo. Por ser uma intervenção rápida e barata, vários hospitais aderiram à técnica, equanto esse médico rodava os EUA “lobotomizando” pessoas com seu furador de gelo. Funcionava assim: ele colocava o furador nos canais lacrimais (isso, no olho) do paciente e martelava o furador até ele atingir o cérebro, daí começava a torcer a ferramenta para destruir aquela área cerebral. O paciente recebia uma anestesia local ou um eletrochoque antes.
A lobotomia pré-frontal nos seus primórdios é muito mal vista hoje, e, de acordo com médicos, o preconceito e a ignorância fazem com que as pessoas critiquem as psicocirurgias atuais, as quais, apesar de pouco utilizadas, os médicos afirmam estarem muito mais desenvolvidas devido ao avanço tecnológico e ao nosso maior conhecimento sobre o cérebro humano, tornando-se a única saída em determinados casos.
Na minha opinião
Creio que o cérebro é um dos maiores mistérios que temos a solucionar. As pessoas com distúrbios mentais, em nossa história, já foram vistas como demônios, hereges, bruxas, possuídos, etc. Quanto mais nosso conhecimento aumenta, mais brandas vão se tornando as definições.
A medicina hoje já não nos deixa “endemonizar” os loucos, mas ainda os chamamos de “loucos”. Contudo, estima-se que 20% da população mundial sofre de algum tipo – leve ou grave – de transtorno mental, número esse que, talvez, se tornará muito maior ou muito menor quando entendermos o cérebro por completo. Talvez não existam loucos, ou o mais provável: todos somos loucos, em maior ou menor grau. Ouçam nossos antepassados: “De médico e louco todo mundo tem um pouco”.
Para saber mais: Psicocirurgia ou Cirurgia Psiquiátrica | A História da Terapia Por Choque em Psiquiatria
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