“Sou nada. Não mereço ninguém e devia morrer. Minha vida é horrível. Sou feia, sou motivo de nojo” – Disse ela ao desconhecido que ela lastimavelmente chamava de “amigo”.

Não foi difícil entender todas aquelas palavras doentes. Doentes do amor vazio que, ao bem da verdade, não poderia ser chamado “amor”. Obsessão, talvez.

O “amigo” lembrou da primeira vez que a vira. Antes de ver um corpo, ele sinestesicamente vira uma sensação. Uma sensação apaixonantemente realizadora. Não sentia aquilo sempre, contudo, dessa vez, se surpreendeu com a visão. E agora, depois de poucas semanas, estavam ali, ele assistindo, penalizado, o medíocre discurso daquela mulher, que certamente fora abençoada com a beleza divina e um espírito que saltava de seu corpo, de tão grande.

Mas lá estava ela, se lamentando da inexistente falta de beleza e espírito. Se flagelava por não ser desejada, por não ser amada, queria morrer. Nada mais existia para ela, o mundo não a queria e nunca mais ela seria a mesma, pensava. Estava afetada, doente, acabada. Se destruía por ter sido tão castigada pela vida.

Entende-se o mal estar e a dor do fim de um affair, de um romance. Ela acabara de ser abandonada por aquele que ela, talvez, amasse. Obviamente estamos falando de um ciclo natural da vida. Mas não para ela. Não. De maneira alguma. O “amigo” vira toda a fragilidade de um ser que não se ama, exposta nas palavras daquela mulher. “Não se ama” pensou “Quando não nos amamos, depositamos toda nossa existência em qualquer coisa que mentirosamente chamamos de amor. O amor de um homem. E se esse amor se vai, não resta mais amor nenhum para ela. Nem o dele, e nem o dela, que parece não existir”.

“Ame-se” diria ele à bela desgraçada, caso ela o ouvisse “Ame-se, pois quando perder o amor do outro, o seu amor próprio te manterá viva, feliz, e bela como sempre foi.”

Ao se despedir, quase sem palavras, ele a fitou pelo que pareceu ser a última vez. Olhou-a e viu tudo que ela não queria ver. Deslumbrou-se com a suavidade de seus lábios, que mesmo sem se mover cantavam árias celestiais. As delicadas mãos que pareciam abençoar tudo em que tocavam, o ar gracioso que tentava ser abafado pela negação, e finalmente parou nos olhos. Dizem que não se pode olhar diretamente para os olhos dos anjos, ou o brilho e beleza divina deles o cegavam. Ele se cegou. Virou-se e partiu, guiado pela alma e pela certeza de que ao menos ele sabia que ela estava enganada ao se lamentar. Muito enganada.