O fim de uma era
Por Christian Gurtner - 20.07.2009
PREFÁCIO
Esse ensaio surgiu quase que naturalmente quando fui abordado por uma dupla-caçadora-de-fiéis da igreja Testemunhas de Jeová e respondi à pergunta que me fizeram (que praticamente é metade deste ensaio) Acontecimentos que ocorreram no mesmo dia – mais tarde – completaram a linha de pensamento e preencheram o resto do texto.
Às 9:17 da manhã do terceiro domingo de julho, chega pela porteira duas mulheres de cabelos embaraçados e compridos, mal cuidadas e com saias até as canelas. Se apresentam. Uma delas tira uma pequena bíblia do bolso e pergunta “Porque você acha que o mundo hoje não se preocupa com o amor?”. Ora, essa foi quase uma pergunta retórica. Sem contar o fato de que ela já me fez uma pergunta criando uma opinião que talvez eu não concordasse. Era, obviamente, uma introdução para os ensinamentos bíblicos que ela iria pregar em seguida. Mas ela esperou que eu respondesse e, com certeza, esperaria que eu simplesmente fosse conivente com o fato. Mas ela recebeu – respeitosamente, diga-se de passagem – uma resposta mais complexa…
O FIM DE UMA ERA – ENSAIO SOBRE O MUNDO ATUAL
Duas gerações estão presenciando uma das mais rápidas revoluções tecnológicas da história. Uma mesma geração viu os discos de vinil passarem por fitas K7, CDs, Pen-drives e cartões de memória que cabem mais de mil discos de vinil dentro.
A internet foi inventada e popularizada. E desde então, tudo mudou. O reino da futilidade, do comodismo e da mentira se tornou o guia do mundo. Não que seja culpa da internet. Ela é só uma ferramenta. A mídia já havia pregado a futilidade como dogma das culturas há muito tempo atrás, mas a internet foi a ferramenta que ajudou a disseminar e fortalecer tudo isso.
A falta de perspectiva, as mentiras da vida, as exigências sobre-humanas impostas às pessoas, as morais falidas, a tristeza, a dor, a falta de amparo e principalmente a banalização do amor de uns pelos outros criou pessoas assim: sem vida, sem sentido. As pessoas dizem “te amo” aos seus parceiros, e alguns dias depois estão na cama se entregando de corpo e alma para outras pessoas, amigos dizem “se amar”, e boa parte deles não estará presente quando for preciso, as igrejas dizem que “Jesus te ama”, mas ele leva seus familiares cedo demais e deixa crianças morrerem de fome. Então porque se preocupar com o amor? Ele é só uma palavra. Uma palavra para ilustrar centenas de sentimentos ou interesses à escolha de quem a usa. Ele não possui uma definição. E, tudo isso, forma a era da futilidade, do grotesco e do mal gosto.
A tecnologia avançou tão rápido que não conseguimos nos adaptar ainda. Estamos aprendendo. E aprender se resume em cometer vários erros.
O que vemos hoje é um povo mais interessado em pessoas se expondo ao ridículo para ganhar alguns minutos de fama do que no ridículo que está se mostrando o governo. A internet virou uma fazenda desse tipo de pessoas: se expor, se ridicularizar, fazer de tudo para ser citado, ser visto pelos seus semelhantes – mesmo que de forma pejorativa – é a necessidade de auto-afirmação, de se sentir vivo, de se sentir melhor do que é.
As músicas hoje, em sua grande parte, não possuem mais genialidade, nem mesmo letra… só palavras que parecem ter sido inventadas na hora. O talento é pouco reconhecido entre a massa popular, mais vale a fama, a estupidez.
As pessoas querem ser ouvidas custe o que custar, falam pelos cotovelos, soltam asneiras inacreditáveis em busca de um reconhecimento, de um aplauso.
Minha geração cresceu no mato, no quintal, jogando bola na rua com sandálias Havaianas determinando a área do gol, nas aventuras pela cidade, nas brigas de turminhas, na liberdade dada pelos pais de crescermos aprendendo na marra o que é o mundo lá fora. Televisão? Só duas horas por dia, no máximo (que era a hora dos desenhos animados): He-Man, com suas lições de moral no fim, Caverna do Dragão com todo um mundo de magia e trabalho em equipe…
As crianças da geração de hoje – principalmente nas cidades grandes – mal sabem o que é quintal, não conseguem imaginar a rua como um campo de futebol. A rua é só o caminho que leva à “nova diversão”: as lan houses, os shoppings. Mato? “Não entre aí menino, é cheio de carrapatos e bichos venenosos!”. Raramente vemos crianças sozinhas em lugares que não são 100% seguros. Estão sempre acompanhadas dos pais super-protetores, para em seguida voltar para casa e gastar horas e mais horas em frente à televisão, engolindo programas como Teletubbies.
A nova geração mora num mundo mais perigoso, mais violento, mais denegrido… será? As escolas diminuiram a rigidez, vêem toda criança, por pior que seja, como especial, e mostram isso para ela. Ao invés de penalizar tentam mostrar que aquilo não é algo “legal” a fazer, ao invés de aplicar a autoridade e a hierarquia, deixam os professores como iguais, como meros empregados que podem ser demitidos por causa das reclamações das crianças – e isso se estende às universidades.
Nada contra. Talvez, quem sabe, essa seja a forma “certa” de educar? Mas para que isso se torne algo bom, é preciso que toda a sociedade e todo o mercado de trabalho também entendam isso – o que não acontece. Assim, as “crianças especiais” se formam completamente despreparadas para a selva que é a vida, onde ninguém é especial, você é bom ou é ruim, é promovido ou despedido, é penalizado, é colocado num meio hierárquico e não tem ninguém para lhe amparar quando seu patrão lhe chama de burro e incompetente e te torna um desempregado. Onde está a diretora da escola para dar outra chance? Onde está o professor bonzinho que vai te dar uma “ajudazinha” nas notas para você conseguir passar na prova do emprego para voltar para a empresa?
Aqui no Brasil as pessoas gastam mais com Big Brother e porcarias derivadas do que com investimento, com ajuda aos necessitados, às ONGs ambientais. É uma necessidade impressionante de ver a vida dos outros indo por água abaixo, é o gozo com a desgraça alheia, é a chance de ter de quem falar mal.
A futilidade vence. Talvez ela seja somente um paradigma momentâneo nessa troca de eras. Se não for, estamos lascados. Pseudo-celebridades surgem a cada momento na internet e fazem tanto sucesso que algumas vão para a televisão, pois é o que o povo quer. Viva a Sttefany, ela venceu!
POSFÁCIO
-Obrigado pela atenção. Tchau – disse a religiosa da Testemunhas de Jeová e foi embora.
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