28/10/06 Christian Gurtner

Para o povo, Pão e Circo

Pão e circoO que mais precisam? Tendo isso, eles não querem mais nada. Não têm perspectiva, não têm objetivos grandiosos. Querem só comer e se divertir. Assim cresceu o império romano.

Mas uma minoria do povo não era controlada. Possuía conhecimento. E esses estavam no encalço pela disputa de poder que era facilitada pelas conspirações e traições palacianas que acabavam por abrir uma lacuna de corrupção no governo regente que era desmantelado.

Mas o governo seguia. O importante era manter o povo calado. Calado e contente com a esmola que recebia e era de receio geral que essa fosse perdida numa revolta. Anfiteatros para peças e lutas de gladiadores eram construídos, o pão, o mísero pão era distribuído como um gesto de grande “generosidade” e “solidariedade” dos governantes.

Pão e circo. Educação não. Educação é prejudicial. Educar o povo é abrir seus olhos para a podridão que já causa vômitos nos que a compreendem, mas são minoria. Uma minoria esmagada por um exército de iletrados que continuam sorrindo com um pão sujo na mão, um circo armado e nenhuma visão.

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Sobre o autor

Christian Gurtner Escritor, pesquisador, estuda sobre história e mistérios e é piloto comercial de aviões. Fundador e editor do Escriba Cafe.

  • Sidnei Honório

    Adorei seu texto, Christian! Ele toca em pontos muito próximos às realidades que eu vivi. E assim não pude me calar.
    Nos útimos cinco anos tenho constatado que o Estado realmente quer DESeducar o povo – seja no âmbito estadual, seja no federal.
    Para citar um dos inúmeros exemplos, temos o fato hediondo de o nosso governador Aécio Neves ter comprado as famílias podres mineiras com livros didáticos, que foram entregues somente no mês de agosto, sendo que a mídia divulgou que os alunos já os haviam recebido desde o início das aulas, em fevereiro.
    Creio que, para melhorar a educação, a primeira medida seria fazer com que o professor recebesse um salário compatível com seu volume de trabalho, com sua responsabilidade, sua formação e, sobretudo, sua importância para o desenvolvimento de uma sociedade. Hoje vemos que ele recebe menos que um trocador ônibus, que tem somente a 8a. série. Muitos professores são pós-graduados – especialistas, como eu. Outros são mestres, ou doutores.
    Sabemos que países como Alemanha, Japão, Indonésia, China e muitos outros, se reergueram através da educação. Talvez esse fato faça com que eu considerasse Cristovam Buarque o melhor dos candidatos a presidente do Brasil.
    Durante o período em que trabalhei como professor da maior escola pública estadual de belo horizonte, que recebe alunos de toda a BH e região metropolitana, percebia que, a cada ano que passava, os adolescentes estavam ficando cada vez mais alienados. Seus valores estavam ficando cada vez mais fúteis (se é que eles os tinham). Esses meninos(as) tinham cada vez menos objetivos na vida. Alguns já conheciam, de uma forma bastante imatura e prematura, a vida afetivo-sexual. Eu via essa falta de perspectivas em seus olhares.
    Creio que isso seja fruto de uma educação familiar desestruturada e dos valores pregados pela mídia. Mas isso é fruto, sobretudo, dessa política nojenta da PSEUDO-extinção do analfabetismo. Mas são só estatísticas, números. Será que é tão difícil perceber que não adianta saber ler e escrever, ter conhecimento científico, tecnológico e histórico-social se vc não sabe interpretá-los e utilizá-los com o objetivo de melhorar a nossa vida? Os meus alunos não sabiam nem o básico, o que dirá de saber aplicá-los.
    O que eu via era uma decida vertiginosa em um poço que parecia não ter fim. Mas ele tem. Estamos quase chegando no fundo dele.
    Como não fui corajoso o suficiente, não permaneci professor da rede estadual de ensino até que pudesse testemunhar a que ponto chegaríamos.
    Hoje sou feliz trabalhando com adoscentes especiais. Especiais no sentido de serem mais bem educados pela família e, consequentemente, menos vulneráveis à pseudo-realidade ostentada pela mídia brasileira e reproduzida esdruxulamente pelos 95% da população brasileira, que não tem acesso à educação de boa qualidade e à cultura. Meus alunos de hoje fazem parte dos 5%. Claro. Passaram por uma seleção dura. Eu também faço parte dos 5%. E os outros 95%? Continuarão sendo manipulados? Continuarão achando tudo lindo? Continarão achando que terminar em pizza é algo normal? Achando que ter um corpo e um rosto esculpidos por bisturi é mais importante do que pensar? Achando que malhar o corpo (muitas vezes da cintura pra cima, rs) numa academia é melhor do que malhar o cérebro lendo bons livros, tendo posicionamento político, assistindo bons filmes, bons espetáculos teatrais e de dança?
    A maioria dos adolescentes de hoje não consegue nem desligar o celular quando, raramente, está assistindo uma peça teatral – geralmente uma comédia do besteirol belorizontino. Nada contra a fazer rir. Fazer irir é muito importante. Rir é muito importante. Mas pensar é tão importante quanto.

    Sidnei Honório

  • Thaynara Matos

    Adorei seu texto, mais como sou uma estudante, eu preciso de mais detalhes.
    Um abraço!

  • Gisele_fernandes1992

    Muito importante esse seu comentário Sidnei,aqui em Manaus vivencio essa mesma realidade,onde as crianças não tem condições de ter um bom ensino por falta de escolas(a prefeitura aluga prédios que ficam superlotados e não oferecem estrutura que possibilitem um bom aprendizado) e fora o calor dessa cidade(max. de 38¬∞ e tem salas que não tem ar-condicionado) mas enquanto isso…
    A “Virada Cultural” rola solta!!! Uma festa que reúne várias atrações,conhecidas em ambito nacional…
    O nome é até bonito…Mas é necessário questionar: O que atrações como o grupo Calcinha Preta tem a oferecer no que diz respeito a cultura para um povo?
    Na certa,este evento deveria ter outro nome.

  • df

    Todos tem seu pão e circo, inclusive a nobreza, generais e imperadores romanos. O pão e circo deles era mais refinado, mas também estavam presos a riscos, tensões sociais e pressões psicológicas em troca de fama, posição social, autoridade e vida mais confortável.
    Isso continua ocorrendo nos tempos modernos, o que muda são os títulos e nomes.

    Mas então quem nesse mundo não está iludido com pão e circo? a resposta é: Somente os que estão desapegados das coisas. Utilizam os benefícios do mundo sem se deixar governar por eles. São felizes com o que a vida lhes proporciona. Se são agraciados com mais coisas, aceitam de bom grado. Se lhe é retirado algo, aceitam com resignação, sem deixar de lutar pelo que acreditam.

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