Podcast LXVII – AMOR
Por Christian Gurtner - 11.09.2009
Uma viagem inusitada ao obscuro mundo do amor.
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Ficha TécnicaTranscrição do podcast: Podcast LXVII – AMOR
Introdução
De todas as tentativas de explicação, somente uma realmente me convenceu.
Soneto 116 de William Shakespeare:
De almas sinceras a união sincera
Nada há que impeça. Amor não é amor
Se quando encontra obstáculos se altera
Ou se vacila ao mínimo temor.
Amor é um marco eterno, dominante,
Que encara a tempestade com bravura;
É astro que norteia a vela errante
Cujo valor se ignora, lá na altura.
Amor não teme o tempo, muito embora
Seu alfanje não poupe a mocidade;
Amor não se transforma de hora em hora,
Antes se afirma, para a eternidade.
Se isto é falso, e que é falso alguém provou,
Eu não sou poeta, e ninguém jamais amou.
Tempo de amar
Eu entendo o amor como um ser a parte. Um animal que mora dentro de nós e que possui desejo próprio e que, quando alimentado, é capaz de nos dominar completamente e tomar o controle de nossos corpos e de nossas vidas.
E por isso não consigo enxergar o amor como muitos pregam: aquela coisa bonita, pura, perfeita.
O amor possui todos os sentimentos, todos os defeitos e todas as qualidades... E esses sentimentos, quando estimulados, se tornam gigantes, potentes e, muitas vezes, terríveis.
Só quem ama é capaz de sentir a alegria extrema, a paixão extrema, mas também, muitas vezes, o ódio infernal, que queima todas as artérias e torce todos os músculos.
O amor é esse bicho, que quando recebe afagos se torna feliz, quando é ignorado se sente triste e, quando é ferido, pode se tornar uma besta apocalíptica.
O amor é amplo, é abrangente, muitas vezes paradoxal. Mas é sincero, é impulsivo, é selvagem. O amor é a única forma de sentir a plenitude da vida.
Mas por trás de qualquer explicação minha ou de outros, por trás de qualquer definição científica ou esotérica, sempre ficará o mistério, pois, acima de tudo, isso é o amor: um monte de reações físicas e químicas, mas que se resumem num eterno mistério de nossa essência.
Eros e Psiquê
Sempre que o assunto é amor, me recordo de uma das histórias da mitologia grega. A de Eros e Psiquê.
Psiquê, uma bela jovem, que de tão bela começou a ser cultuada como deusa, causou a ira de Afrodite, a deusa da beleza, que viu seus adoradores deixarem de ir ao seu templo para adorar Psiquê.
Afrodite, delegou então ao seu filho Eros, o deus do amor, a tarefa de matar Psiquê.
Armado com arco e flecha envenenada, Eros, durante a noite, foi ao quarto de Psiquê, que dormia e não percebeu a presença. Mas ao olhar para ela, Eros se apaixonou e decidiu não matá-la.
Furiosa pelo plano ter dado errado, Afrodite lança então uma maldição determinando que a bela jovem jamais se casará, e assim, Psiquê, apesar de toda beleza e adoração, ficou solitária, pois nenhum homem se aproximava dela.
O pai de Psiquê, vai ao Oráculo para saber o que deveria ser feito para que sua filha se casasse. Mas o oráculo, já instruído pelo apaixonado Eros, diz ao pai que os deuses ordenam que Psiquê deve ser largada, vestida de luto e sozinha, no alto de uma montanha.
Triste, o pai obedece.
Psiquê, solitária na montanha, achou que aquele seria o seu fim, contudo, o vento a pegou nos braços e levou-a para um enorme palácio onde lhe fora dito que ali ela se casaria.
Durante a noite Eros foi visitá-la em seu novo quarto, usando um capuz para que ela não pudesse ver seu rosto, e informou que eles só poderiam se casar se ela concordasse em jamais tentar ver o rosto dele.
Eros fez isso para manter o casamento em segredo de sua mãe, a Afrodite.
Psiquê viveu dias maravilhosos e amava seu misterioso marido e seu casamento.
Contudo, as irmãs de Psiquê, com inveja da vida dela, disseram-na que talvez o marido dela fosse um monstro e que ela deveria, durante a noite, levar um punhal e uma vela e tirar o capuz do marido, e, se fosse um monstro, apunhalá-lo.
Psique foi convencida pelas irmãs e resolveu fazer o que elas sugeriram e, durante a noite, armada com um punhal, tirou o capuz de Eros, que dormia. Ela então se apaixonou mais ainda pelo marido que agora ela via ser um homem extremamente belo. Mas, sem que ela visse, uma gota de cera quente caiu no peito de Eros, que acordou, e furioso fugiu gritando que não há amor sem confiança.
Psiquê desmaiou e quando acordou na manhã seguinte, tudo havia sumido, até o palácio.
Desde então, Psiquê passou a vagar triste e solitária pelo mundo, em busca de seu marido. Seu arrependimento a fez tentar se matar afogada no rio, mas o rio a jogou para fora. Uma divindade aconselhou, então, que Psiquê fosse ter com Afrodite e se pusesse ao seu dispor para tentar uma reconciliação. E ela o fez.
Ao chegar no palácio da deusa, Psiquê informou suas intenções à Afrodite, que deu uma gargalhada e disse à bela jovem que para reconquistar o amor de Eros, ela teria que passar por quatro provas: entrar em uma sala onde possuía uma enorme quantidade de vários tipos de minúsculos grãos misturados e separá-los até o final do dia, em seguida deveria ir buscar um punhado de lã de ouro de ovelhas ferozes e violentas, encher um vaso de cristal com a água negra de uma cascata localizada na mais alta montanha e finalmente descer ao inferno e buscar um pote contendo a poção da beleza.
Embora todas as provas fossem praticamente impossíveis, Psiquê, depois de muito custo, com ajuda de animais e divindades, conseguiu cumprir todas, contudo, logo após ter conseguido o pote com a poção da beleza, antes de levá-lo à Afrodite, ela resolveu pegar um pouco para si, na esperança de ficar ainda mais bela e Eros se apaixonar novamente por ela. Mas ao abrir o pote, de lá saiu o sono profundo, que fez Psiquê cair adormecida e assim ficar para sempre.
Esse seria o fim de Psiquê, mas seu amor sempre fora correspondido, Eros a amava, e desesperado fora pedir a Zeus que impedisse Afrodite de continuar com a perseguição. Zeus, então, reúne todos os deuses e decidem que Eros iria se casar com Psiquê e viriam morar no Olimpo. Afrodite concorda com a decisão, pois assim Psiquê deixaria a terra e os homens voltariam a adorar a deusa da beleza.
Eros vai até onde está a adormecida Psiquê e a desperta com a ponta de uma de suas flechas e os dois se casam.
Eros também é conhecido no panteão romano como Cupido.
O que é amor
Na Wikipedia ele é definido da seguinte forma:
A palavra amor (do latim amor) presta-se a múltiplos significados na língua portuguesa. Pode significar afeição, compaixão, misericórdia, ou ainda, inclinação, atração, apetite, paixão, querer bem, satisfação, conquista, desejo, libido, etc. O conceito mais popular de amor envolve, de modo geral, a formação de um vínculo emocional com alguém, ou com algum objeto que seja capaz de receber este comportamento amoroso e alimentar as estimulações sensoriais e psicológicas necessárias para a sua manutenção e motivação.
No dicionário Priberam da língua portuguesa, as definições são:
1. Sentimento que induz a obter ou a conservar a pessoa ou a coisa pela qual se sente afeição ou atração.
2. Paixão atrativa entre duas pessoas.
3. Afeição forte por outra pessoa.
4. Ato sexual.
5. Brandura, suavidade.
6. Paixão ou grande entusiasmo por algo.
Muito científico, não? Talvez seja por isso que a poesia, os livros, a arte e a música foram os que mais chegaram perto, não digo da verdade, mas daquilo que realmente sentimos.
That's Amore
E assim, com Harry Warren, compositor e letrista de That's amore, podemos entender o amor como:
Quando a lua atinge o seu olho, como se fosse uma enorme pizza, isso é amor.
Quando o mundo parece brilhar, como se você tivesse bebido vinho demais, isso é amor.
Os sinos vão tocar, você vai cantar "Que vida bela", seu coração vai bater como se fosse uma alegre tarantella.
Quando as estrelas fazem você babar como um macarrão, isso é amor.
Quando você dança na rua com uma nuvem em seus pés, você está apaixonado.
Quando você entra em um sonho, mas você sabe que não está sonhando, me desculpe, mas isso é amor!
O fim do amor
E quando o amor acaba? Mas o amor acaba? Nunca. Na minha humilde opinião, amor que acaba é o amor que nunca existiu. Mesmo os casais que se se separam, podem estar se odiando mas o amor continua. Aqueles que realmente amam, vão levar esse amor até a morte, juntos ou separados.
Épor isso que o mundo está cheio de profissionais especialistas nisso ou naquilo. Terapia de casal, artigos em revistas e várias outras tentativas de explicar o inexplicável, só servem para provar que quem precisa disso é quem não ama, e quem não ama não tem nenhum motivo para precisar disso, afinal, pra quê? Bem, talvez para tentar começar a amar.
Mas uma coisa é certa: esse bicho, chamado amor, também serve como um amplificador orgânico. Se a pessoa é ciumenta, quando ama, pode ter seu ciúme ampliado ao ponto de matar por isso.
O amor pode ser uma dádiva, pode ser uma doença, mas pode ser também uma cura. E o amor também pode se inundar com o mais profundo ódio.
A traição, muitas vezes, é o principal motivo. Ser traído por qualquer pessoa causa a frustração e o desprezo. Mas quando se é traído pela pessoa que se ama, de acordo com psiquiatras, o que pode surgir inicialmente é um choque, todo um sentimento de fracasso, de tristeza profunda e depressão.
Mas todos esses sentimentos só preparam as pessoas traídas para o que vem a seguir, quando a razão começa a conversar com o coração. Aí surge o maior ódio já conhecido: o ódio de quem ama. E as trevas tomam conta do corpo e da alma da pessoa... a vingança se torna a lei.
Por isso digo que não existe pessoa qualquer ainda nesse mundo que conseguirá explicar o amor. Pode-se chamar várias coisas de amor e, por isso, esses amores acabam, ou são doentios ou seja lá o que for.
Traição
A traição sempre foi considerada por muitos o pior ato que um ser humano pode cometer. Tanto que até pouco tempo atrás no Brasil, a traição conjugal era crime. Na época do novo testamento, adúlteras eram apedrejadas, mas apesar de tudo sempre houve o lado machista onde a pena para os homens adúlteros era mais branda ou nula.
E não devemos nos conter só no lado conjugal, a traição no mundo sempre foi vista como um dos atos mais graves e covardes em qualquer contexto.
Na maioria dos países, trair a pátria é um crime capital, cujo infrator é executado ou condenado à prisão perpétua. E o fator traição é tão agravante no julgamento que, se por exemplo, um espião estrangeiro for descoberto e preso na Inglaterra, ele pode receber uma pena de 14 anos de prisão, enquanto que se for um inglês espionando a Inglaterra para um país estrangeiro, ele provavelmente receberá prisão perpétua, pois além de espião ele é julgado traidor.
A traição também está presente como covardia e monstruosidade na maioria das mitologias de todas as civilizações, inclusive na mitologia cristã, com Judas Iscariotes, por exemplo.
Mas ela também esteve presente moldando nossa história.
No Brasil, o mais conhecido caso de traição é o de Silvério dos Reis, português, que, para quitar suas dívidas com a coroa, entregou Tiradentes e todos os planos da inconfidência mineira. Tiradentes fora enforcado e esquartejado.
Nos Estados Unidos, Aldrich Ames, espião da CIA, se vendeu para a KGB e passou 15 anos vendendo informações e entregando nomes de informantes. Foi condenado à prisão perpétua.
E finalmente, na antiguidade, apesar de ainda ser um mistério sobre sua veracidade histórica, a lendária guerra de Tróia, contada por Homero, teve seu início devido à uma traição conjugal. Helena, esposa do Grego Menelau, o trai com Páris, um príncipe troiano, e vai com ele secretamente para Tróia. Menelau reúne então todos os exércitos de todos os reis Gregos e parte com seus navios para guerrear durante 10 anos até que, finalmente, derruba Tróia.
A beleza do amor
Mas o amor é muito mais que isso. Tudo o que eu disse foi só para mostrar o poder do amor. Quem ama pode sofrer muito mais e de formas muito mais trágicas do que quem nunca amou.
Mas quem ama, vive momentos gloriosos, alegrias plenas e sensações maravilhosas que, só quem já amou, sabe.
Mas não encaremos tudo isso focando somente nos nossos cônjugues. O amor se espalha por todas as áreas de nossas vidas e por isso devemos cultivá-lo. Sim, o amor não surge, ele é cultivado, é fecundado... até nascer. Até nascer aquele bicho tão misterioso e mágico.
Portanto, independente do que possa vir a acontecer, permita-se amar, distribua seu amor, deixe-se amar seus familiares, amigos, namorados, namoradas, maridos, esposas, bichos de estimação e acima de tudo, você mesmo. Ame-se como o que você realmente é: a única pessoa nesse mundo que sempre estará ao seu lado, desde seu nascimento, até sua morte.
Mas deixemos de lado toda a baboseira de esotéricos e de auto-ajuda, nunca viveremos somente do amor. Tenha raiva de vez em quando, faz bem, acredite. Só sabemos o que é bom porque existem coisas ruins, e necessárias.
O amor não tem definição... portanto não leve tão a sério tudo o que foi dito aqui, não leve tão a sério nenhuma regra, nenhuma explicação ou sugestão... Fique longe da auto-ajuda, pois, se é auto-ajuda, você não precisa de ninguém dizendo o que fazer... Os melhores psicólogos, os melhores terapeutas, os melhores professores são a família, os amigos e qualquer um que faça você refletir e se sentir bem. E não se esqueça de adotar aquilo que só uma palavra feia pode representar, o grande e sábio "foda-se".
Então ame, odeie moderada e temporariamente, sorria, chore, enfim, viva... viva sem se bloquear, sem se limitar. Viva plenamente, ou faça o que quiser - ame o mundo, pois é o único que você tem, e se achar que os outros estão deixando ele ruim, você vai ser a primeira pessoa a tentar melhorar... e chega de clichês... eu só digo isso porque amo... a família, amigos, a condessa de Löwenttur e amo, sem nenhum exagero, o carinho e participação de todos vocês.
Ficha técnica do Podcast LXVII – AMOR
Autoria
Criação, produção e roteiro: Christian GurtnerTextos: Christian Gurtner e soneto 116 de W.Shakespeare
Trilha sonora
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