Um dia você recebe a proposta para um trabalho secreto em que, para manter o sigilo, seu cérebro receberá um implante que vai virar uma chave em sua memória dependendo de onde você está. Assim, enquanto você estiver fora da empresa, não terá uma memória sequer do trabalho e, assim que atravessar a porta de entrada da empresa, não terá qualquer memória de sua vida pessoal.
Essa é a premissa (e um leve spoiler dos primeiros minutos) da série Ruptura, disponível no Apple TV+.
Genial. Se não genial, uma fábrica de questionamentos e debates filosóficos.
Mas já começo aplicando no seriado minha antiga tese do egoísmo primordial1. A pessoa aceita o emprego e sabe o que vai acontecer: ela não terá nenhuma memória do trabalho, portanto, ela nunca mais precisará trabalhar — afinal, alguém está trabalhando por ela. Ela explora uma outra versão dela para não passar pelo sofrimento e o estresse do trabalho. Ela escravizou a si mesma.
Enquanto isso, temos a outra versão da pessoa: ela “nasceu” no escritório e não tem a menor ideia do que acontece lá fora. Ela não tem memória de dormir, acordar, divertir-se ou descansar; ela simplesmente trabalha todos os dias e horas de sua vida sem nunca parar.
Assim abrimos um leque de conceitos filosóficos que foram nitidamente usados pelos escritores do seriado para criar a trama.
Começamos com o Mito da Caverna de Platão2, a mais clara referência na série: as versões trabalhadoras das pessoas não conhecem o mundo externo e não sabem nada do que acontece lá fora. Sua realidade é um escritório sem janelas no qual lhes são apresentadas as “sombras”, como no mito, que, no caso, são as instruções dos chefes e o trabalho sem sentido que realizam ali.
Mas um dos homens consegue sair da caverna e tenta mostrar para os demais o que realmente está acontecendo. O resto da história já sabemos. Se não sabe, procure os episódios do Hall3 por aqui sobre o Mito da Caverna.
Na sequência, as referências a Søren Kierkegaard, um dos pais do existencialismo, são as mais profundas. O próprio fundador da empresa recebeu o nome de Kier, como alusão ao pensador. E é aqui que quero que nos atentemos um pouco, independente se você viu o seriado ou não.
"Existir significa 'escolher', mas isso não representa a riqueza, mas a miséria do homem. Sua liberdade de escolha não é sua grandeza, mas seu drama permanente." - Søren Kierkegaard
A filosofia de Kierkegaard gira em torno da angústia (angst), que foi definida por ele como a “vertigem da liberdade”. Ou seja, o ser humano desenvolve essa angústia quando percebe que é completamente livre para escolher e que essas escolhas trazem consequências.
A entrada na empresa do seriado é o salto no escuro, ou de fé, onde o personagem abdica do controle de suas escolhas ou, pelo menos, no que tange à outra versão. Mas, de forma quase paradoxal, ele escolheu isso.
Kierkegaard usou uma metáfora interessante para isso: o homem na beirada de um abismo sente medo de cair ao mesmo tempo que sente o impulso de se jogar voluntariamente.
Estamos com uma thread aberta em nosso chat aqui do Substack onde estamos conversando sobre como a história e a filosofia têm influenciado nossa vida e nossas decisões. Kierkegaard apareceu nessa conversa. Considero que estamos, então, na era Søren Kierkegaard. E convido todos a participarem dessa discussão que está aberta também para assinantes gratuitos:
Uma sugestão de leitura para se introduzir no mundo de Kierkegaard é a obra disponível nesse link: https://amzn.to/3RRohMk
A tese de que absolutamente tudo que fazemos é por egoísmo. Até mesmo o altruísmo é egoísta. Pietra Welter me apontou o dedo dizendo que essa tese foi explicitada num determinado seriado um pouco mais antigo, mas afirmo que eu já a tinha bem elaborada há muito mais tempo. Hollywood me plagiou.
O Mito da Caverna, presente na obra “A República”, de Platão. Você pode ouvir os episódios do Hall sobre esse tema e entendê-lo melhor através dos links a seguir:
Assim como citado na nota acima.





