A escravidão da ideologia
Uma visão sobre as consequências da escravidão e como hoje tentam usá-la como antes: para obter poder político.
A escravidão não é negra.
A que esteve mais próxima de nós, geográfica e temporalmente, foi a dos escravos africanos, que eram vendidos por tribos africanas inimigas para os europeus para serem importados para as Américas e isso — mas não só isso, é importante destacar — explica parte do racismo e das diferenças socioeconômicas nos dias de hoje no Novo Mundo.
Antes de serem importadas como meros produtos da África, as pessoas já eram escravizadas por lá. Negros escravizavam negros. Antes disso, negros escravizavam brancos lá pelo norte — houve, inclusive, um grande mercado de escravas sexuais brancas.
Brancos escravizaram brancos, árabes escravizaram cristãos e, na Idade Média, foram tantos os eslavos escravizados que deram nome à palavra que usamos hoje: “escravo” vem de “esclavus”, que se referia a esse povo.
Mas a escravidão já acompanha a humanidade desde muito antes. Estima-se que, no Império Romano, 30% da população de Roma era escravizada.
Durante toda a história, a escravidão acompanhou o ser humano, não diferenciando etnia, crença ou origem. Normalmente, os escravos eram pessoas que não pagaram dívidas, capturadas em derrotas de guerras ou até mesmo caçadas por seus iguais, como na história mais recente.
Alguns sistemas maltratavam os escravos, outros os assimilavam como acessórios ou pets, objetos sexuais ou artigos valiosos. No entanto, com o desenvolvimento das sociedades e a necessidade crescente de mão de obra, a cultura escravagista também se desenvolveu como oportunidade de negócio até chegar ali por volta do século XVI, em que o comércio de escravos entre os próprios africanos se deparou com os europeus, que se interessaram pelo “produto”.
Assim, a onda de captura de membros de tribos inimigas foi grande para suprir a lucrativa demanda das Américas.
Chegando às Américas, o que se viu foi uma desumanização dos escravos para poderem ser tratados puramente como produtos. E o comércio era tão lucrativo que até mesmo os escravos libertos almejavam ter seus próprios escravos como forma de prosperidade. E alguns foram muito bem-sucedidos nisso, como a famosa Chica da Silva.
Zumbi, o famoso “herói” dos escravos libertos, tinha escravos. De uma forma velada, claro, mas os tinha (pergunte aos que tentaram sair de seus quilombos).
Historicamente, a escravidão não foi negra. A bem da verdade, a escravidão, na humanidade, sempre foi o negócio menos racista de todos: visava, unicamente, ao lucro. No entanto, o estigma mais moderno, pelo comércio macabro, caiu sobre os negros.
Em algumas regiões da Eurásia e da África, sentem-se até hoje os reflexos de terem tido boa parte de sua população escravizada e estigmatizada como tal. E nas Américas isso foi notável.
Com o fim da escravidão, os negros libertos passaram por fases de adaptação sem nenhum programa ou planejamento, o que os levou a ficar do outro lado do abismo. Alguns prosperaram, claro, mas a maioria não tinha para onde ir. Assim, seus descendentes acabaram por sofrer com o preconceito e a falta de oportunidades.
No entanto, essa não é só a história dos descendentes de escravos. Do outro lado do abismo, hoje temos diversas etnias vindas de regiões falidas que caíram no poço de uma nação que nunca tenta sanar o problema, mas somente tratar porcamente de forma paliativa.
É o caso das cotas. Apesar de algumas pesquisas mostrarem algum sucesso entre os cotistas, esse programa ignora aqueles que se encontram do mesmo lado do abismo, mas com uma cor de pele não adequada ao “benefício reparatório”. Não seria esse o conceito de racismo? Sim ou não, é um motor que gera mais racismo.
A partir do momento em que aqueles antigos estigmatizados começam a ser assimilados pela sociedade, o estigma — leia-se o racismo — vagarosamente tende a diminuir. É óbvio que o círculo vicioso da pobreza com o crime acaba por dificultar isso, mas a tendência é diminuir naturalmente e com a parcimônia das leis.
Quando o governo, de forma ideológica e oportunista, começa a agrupar minorias e dar-lhes benefícios que outros grupos não têm por causa da cor da pele ou orientação sexual, temos exatamente aquilo que ele diz combater: racismo e preconceito.
Ações e planos de reintegração de pessoas em situação desvantajosa devem ser universais e não discriminatórios. Ações assistenciais devem ser um meio, e não um fim.
Mas hoje tudo é tabu. Tudo é política, demagogia e populismo. Protegeram de forma ideológica e tirânica certos assuntos para que esse tipo de solução não seja adaptada. Aquilo que estava naturalmente — mas muito vagarosamente, sim — sendo tratado, como o racismo e o preconceito, acabou por ser reforçado numa sociedade que foi separada em grupos antagônicos.
Qualquer pessoa com dois neurônios entende que essa receita é perfeita para um governo se manter livre da vigilância do povo.




Interessante abordagem, longe das amarras e tabus ao tratar do tema que é espinhoso e cheio de estigma emocional.
Parabéns.