Lá fora parecia estar frio. Não muito, mas na medida certa para que a manhã se prolongasse como um grande lençol sobre as colinas.
Ela olha distraída pela janela em seus pensamentos que nunca eram desvendados. Que mundo acontecia ali? Por onde ela viajava, que caminhos percorria e maravilhas criava em sua nau etérea?
Os ovos que ela acabara de colocar na panela estalaram. O cheiro de café tomava conta da cozinha e as torradas traziam as notas maltadas que harmonizavam com os grãos que viajaram por muitas e muitas léguas até bailarem com as borbulhas da água que também percorreram um longo caminho em busca do mar. O café foi só uma breve interrupção. Muito em breve a viagem continuará, mas não do mesmo ponto - e talvez nem a mesma viagem, afinal, dizem que nunca se pisa duas vezes no mesmo rio. Ou melhor, "Nenhum homem pode banhar-se no mesmo rio duas vezes, pois nem o rio é o mesmo, nem o homem é o mesmo."
Quem disse isso foi o pré-socrático Heráclito de Éfeso, que já havia percebido a fluidez constante do tempo e do homem há mais de 2500 anos.
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