A chuva havia passado. Ele abriu um dos olhos e viu, pela mesma janela de todos os dias, que o rei celeste se esgueirava pelo vidro. Era o aviso de que já tinha passado da hora e que, se ele não levantasse da cama, muito em breve seria estapeado pelos raios quentes daquele deus de outrora.
Era o único deus que realmente se mostrava fisicamente. Era o único de quem até mesmo a ciência já provara o poder de criar vida, de nos alimentar, de nos aquecer do frio, de nos iluminar o caminho e de ter influência direta em tudo o que acontece no mundo.
Assim como os outros deuses, ele também tem o poder de nos castigar e nos destruir. Mas não o faz e nunca o fará deliberadamente. Um dia, ele vai simplesmente morrer e, como uma prova de que era onipresente e onipotente em nossas vidas, morreremos juntos.
Ainda assim, já não há nenhum templo em sua homenagem. Não há orações celebrando mais um dia, não há preces antes das refeições agradecendo-lhe pela comida e nem mesmo um mero reconhecimento de seu poder divino. Ao contrário, temos hippies aplaudindo quando ele se vai depois de mais um dia.
Os antigos egípcios tinham um lugar especial para ele. Era o rei dos deuses, o criador do universo e a fonte da vida.
E ali, naquele quarto ainda com cheiro de chuva, ele não se sentia merecedor daquele deus. Não ainda. Fez seu café, sentou-se com o teclado à sua frente e começou a trabalhar no evangelho de todo sábado. Estava atrasado e seus companheiros esperavam aquelas palavras.
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