Ela não sabia que dia era. O cansaço impregnado, camada sobre camada, que lhe era pintado dia após dia, a vendara para o tempo, e nessa manhã, parecia ter acordado com a sensação de ter dormido dias.
Demorou-se na cama. Sentia que podia e devia dormir mais. Mas não. Já passava das dez. Quem poderia se dar ao luxo de dormir tanto assim?
Um mundo a aguardava. Família, filhos e até ela mesma esperavam que ela se levantasse para que mais um sábado começasse. Por que precisavam dela para o dia começar?
Os rituais. Os humanos sempre viveram de rituais e é isso que os uniu e lhes deu segurança para seguir.
Sem um dos ingredientes de um ritual, ele não acontece; falta algo. E a sensação de que falta algo impede o ritual. É o que acontece com o luto.
O luto é a dor da falta de um ingrediente em nosso ritual. Seja a morte ou um desvio na vida que culmina numa separação romântica, o luto sempre estará lá mostrando que está faltando um ingrediente.
Mas não para sempre. Com o tempo, a receita muda, os ingredientes são adaptados e, novamente, pode-se realizar o ritual. Nunca será o mesmo, sempre ficará a lembrança dos sabores dos temperos que não mais temos, mas, ainda assim, será um ritual pleno, assim como tudo que nos envolve enquanto humanos.
Hora de levantar.


