As manhãs tranquilas pareciam ter se tornado raras, mas aquela era uma delas. Acordara junto com o delicado sopro de vento que abafava o canto dos pássaros ao longe e lhe afagava os cabelos pela pequena fresta aberta da janela. Como sempre, o cheiro de café já vinha da cozinha, trazendo a lembrança abstrata mais confortável que tinha: a lembrança de casa. Alguém fazendo café; alguém já acordado, velando por ela.
O lar da criação, o primordial, é para onde vão os pensamentos em busca de conforto. E conforto vinha facilmente quando o lar atual lhe trazia essa paz e, naquela manhã, era o que ela tinha: tudo.
A vida humana segue o caminho da família: a de sangue, a de irmandade ou a de necessidade. O lar, que tanto se relaciona com uma casa, é, na verdade, outra coisa. A casa pode fazer parte do lar, mas o lar é a família: a de sangue, a de irmandade ou a de necessidade.
O lar era aquele cheiro de café, que era muito mais do que um cheiro. Alguém havia feito o café. Alguém dava vida àquela casa. Alguém estava lá com ela. Alguém a esperava com café.
O lar era aquilo, era alguém, mas era mais do que isso. Era alguém que trazia o conforto do lar primordial.
Ela tinha um lar. E isso era mais importante do que uma simples casa.
“É o homem mais feliz, seja ele rei ou camponês, aquele que encontra paz em seu lar.” - Goethe


