A manhã desenrolou-se junto com a cortina que suavemente acompanhou a fresca brisa que entrava pela janela, trazendo o agradável anúncio da manhã.
Ela sequer se atentou para o fato de que esquecera a janela aberta na noite anterior enquanto se ajeitava debaixo das cobertas. Se fechasse a janela, não precisaria se cobrir mais, mas também não receberia o confortante abraço matinal. E nisso ela prestou atenção.
Quantas vezes deixara de receber um abraço por causa do frio?
A vida podia ser definida naquela janela — pensou ela —, e sou eu que decido se a janela fica aberta ou fechada. Posso abri-la, me casar e viver a alegria do amor e do companheirismo, enquanto me ajeito debaixo da coberta por causa das diferenças e atritos. Mas posso deixá-la fechada e me privar do amor e do companheirismo, enquanto vivo a paz e a beleza da solitude. A janela pode ser aberta e fechada a qualquer momento, não é uma prisão ou caminho sem volta. Posso abrir e seguir numa penosa aventura pelo mundo — sim, penosa. Mas uma edificante aventura. Mas posso fechá-la e viver a tranquilidade da segurança e conforto de minha casa.
A janela está lá. E a sua está aí. Aberta ou fechada?
O mundo é grande e cabe nesta janela sobre o mar.
O mar é grande e cabe na cama e no colchão de amar.
O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar.
— Carlos Drummond de Andrade
I.
Extra! Extra! Esta semana está cheia de notícias!



