Era uma manhã nublada e coberta de silêncio. Um ou outro pássaro que ensaiara um canto matinal parecia já ter desistido. Da janela não se viam ou ouviam carros, carroças ou pessoas. Onde estão as flores?
Sag mir, wo die Blumen sind — foi exatamente o que pedia Marlene Dietrich na música que tocava baixinho na caixa de som.
A cidade nesse sábado de manhã não passava de uma vila. Uma calma aldeia em que nada se via ou ouvia. O mundo dormia.
A sensação de que não havia mais ninguém se diluía numa calma dualidade. Estar só consigo mesmo trazia grande paz. Ser só, por sua vez, era um dos ingredientes da agonia.
O mundo não precisa de nós. Nós precisamos de nós. Se não me faço companhia, ninguém mais conseguirá me fazer sentir menos solitário.
Agora, a fria brisa se esgueirando pelas frestas da janela mostra o mundo lá fora. A bela manhã nublada dá o seu suspiro. Há vida.
A solidão é a sorte de todos os espíritos excepcionais — Arthur Schopenhauer
I.
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