Chega a primavera. Quanto mais definidas são as estações de um país, mais festividades e celebrações acontecem nas ruas. Já naqueles onde é quente o ano inteiro, mal se sabe em que estação se encontra.
— Primavera — disse ela. — É a minha estação preferida.
A primavera, em boa parte da Europa, traz um frescor com beleza. As flores começam a brotar, o cinza e o branco dão lugar ao verde e os sorrisos, levemente agasalhados, já se trocam nas praças.
Desde tempos remotos, a primavera estabeleceu-se como o fim das privações, do medo. É o recomeço, a nova chance. É acordar de um sono e se sentir feliz por ter ganhado mais um dia.
— Mas eu não ia querer viver numa eterna primavera — continuou. — Isso seria como matar a estação. Não tem como se alegrar com as flores e o frescor sem ter passado pelo cinza, o escuro frio cortante. Se houvesse somente a primavera, a primavera deixaria de existir.
Nos despedimos e ela partiu. Ao longe ainda pude vê-la colher alguns raminhos e flores, provavelmente para enfeitar a mesa da casa e celebrar a sua estação preferida.
Abro mão da primavera para que continues me olhando.
— Pablo Neruda


