Um pequeno (ou seria grande?) mistério ronda as Américas desde os primeiros anos da década de 1990: trata-se das Placas Toynbee (em inglês, Toynbee Tiles), que são pequenas placas contendo estranhas mensagens que foram surgindo gradativa e misteriosamente nos asfaltos de avenidas movimentadas.
Com uma misteriosa mensagem, um autor obscuro e referências intrigantes, essas placas têm deixado alguns aficionados eufóricos.
Tudo começou quando transeuntes passaram a notar o surgimento de pequenas placas cravadas nas avenidas da Filadélfia. Ninguém sabia como eram colocadas, por qual motivo e por quem. O conteúdo das placas aumentava mais ainda o mistério, já que gerava referências a mais mistérios. Acompanhe:
As Placas
Feitas de material indeterminado, elas aparentemente são fabricadas de forma manual, cortando o material para formar as letras, e colocadas sobre ruas recém-asfaltadas para que a placa seja cravada no chão (alguns dizem que existe uma técnica em que o asfalto não precisa estar “fresco”, e que basta fixá-la com cola forte e o peso dos automóveis faz o resto).
A Mensagem
A maioria das placas traz basicamente a mesma mensagem:
Toynbee idea in Kubrick´s 2001 ressurrect dead on planet Jupiter
O que significa em português (aprox.):
A ideia (de?) Toynbee em 2001 de Kubrick (ou “filme 2001” em algumas placas) ressuscita morto(a?) no planeta Júpiter.
Em algumas placas, a palavra “Kubrick” é trocada por “Movie”
Uma placa, aliás, foi encontrada no Rio de Janeiro, com os dizeres:
Toynbee idea in cine’ 2001 resucitar morto sul planet Jupiter
(sic)
Os erros e a péssima tradução dessa placa sugerem que, além de ter vindo até ao Brasil, o autor das placas não sabia falar português. Outras placas foram encontradas no Rio, mas já foram destruídas (voltaremos a isso em breve).
Algumas placas, além da mensagem principal, contêm também outras mensagens em letras menores, todas hostilizando os jornalistas, com dizeres como “Matem todos os jornalistas, por favor” ou “Espalhem essas placas, a mídia americana está aliada com os soviéticos”.
As localizações
Foram encontradas placas em várias cidades dos EUA, em Santiago (Chile), Buenos Aires (Argentina) e Rio de Janeiro (Brasil).
O original e os copycats
Após o surgimento das primeiras placas e, em seguida, com o crescimento e a acessibilidade da internet — e consequentemente a disseminação rápida de notícias —, outras placas com dizeres um pouco diferentes, forma e fontes também diferentes, sugerem que imitadores continuaram o trabalho do autor original.
No início, as placas eram praticamente idênticas, diferenciando-se unicamente por cores ou mensagens “extras”. A semelhança da placa carioca com as originais americanas mostra que provavelmente se trata do mesmo autor (que viajou bastante para pregar suas placas).
Por isso, continuaremos daqui ignorando as placas mais modernas e focando exclusivamente nas prováveis originais encontradas nos anos 90.
As primeiras placas
Os primeiros registros de placas encontradas datam de 1993, mas é muito provável que já tenham sido cravadas ainda nos anos 80 e continuaram surgindo até alguns anos depois de 1990.
As ligações e as referências
As mensagens claramente fazem referência a Toynbee e ao filme 2001: Uma Odisseia no Espaço (maravilhosa obra de Stanley Kubrick, baseada nos escritos de Arthur C. Clarke). A referência sobre a ressurreição de mortos no planeta Júpiter pode nos levar também ao filme 2001 (lembram da missão para Júpiter?), mas também pode fazer referência a coisas mais intrigantes que veremos mais à frente.
Mas voltemos ao início: Toynbee? Provavelmente trata-se de Arnold J. Toynbee (1889–1975), um historiador que divulgou teorias relativamente curiosas sobre o nascimento e a queda das civilizações. O historiador pode ser facilmente ligado ao filme de Kubrick. Veja algumas de suas teorias:
“As chances de sobrevivência da raça humana eram bem maiores na época em que éramos indefesos contra tigres do que hoje, que somos indefesos contra nós mesmos”
“Civilizações morrem por suicídio e não por assassinato”
“Eu não creio que as civilizações têm que morrer, pois não são organismos e sim produtos de desejos”
As pistas, suspeitos e suas possíveis inspirações
Quem e por quê? Perguntas até hoje sem respostas. Mas que tal desenterrarmos algumas obras dos anos 80, como Goldberg Street (publicado anos antes de a primeira placa ser encontrada), onde David Mamet, em uma de suas peças, escreveu o seguinte diálogo:
Entrevistador: Olá, você está no ar.
Ouvinte: Olá, Greg, como vai você?
Entrevistador: Estou bem.
Ouvinte: Que bom. Greg, é um prazer falar com você…
Entrevistador: Qual o seu problema?
Ouvinte: Greg, nós precisamos de ajuda para divulgar seu plano. Nós estamos tentando unir nossa organização e conseguir levantar dinheiro para contratar uma firma de relações públicas como a Wells and Jacoby para divulgar nossa organização (PAUSA). Aonde nós vamos ARRUMAR o dinheiro …?! Eu não sei…
Entrevistador: Para divulgar sua…
Ouvinte: No filme 2001, baseado nos textos de Arnold Toynbee, eles falam sobre o plano…
Entrevistador: Perdão, perdão, mas o filme 2001 foi baseado nos textos de…
Ouvinte: …toda vida humana é feita de moléculas…
Entrevistador: …foi baseado nos textos de Arthur C. Clarke…
Ouvinte: Toda vida… não, Greg, se você examinar…
Entrevistador: … ele foi baseado nos textos de Arthur C. Clarke…
Ouvinte: Oh, Greg, não. Nós temos a …
Entrevistador: Bom, continue.
Ouvinte: … nós temos os textos.
Entrevistador: Tudo bem, continue.
Ouvinte: Greg. Nos textos de Arnold Toynbee ele discute uma peça em que toda a vida humana poderia ser facilmente reconstituída no planeta Júpiter.
Seria o autor um suspeito? Ou sua peça uma inspiração para o autor das placas? Ou a coisa vai mais longe ainda e se une a outras pistas? Vejamos então a publicação The Toynbee Convector.
The Toynbee Convector, de Ray Bradbury, é uma história de ficção científica publicada mais ou menos no ano em que se presume que as placas começaram a surgir (suspeito, não?). A obra fala de viagens no tempo, humanidade e civilização (conectando-se às ideias de Toynbee sobre as civilizações, razão do título do livro).
Teria a obra ou seu autor alguma relação com quem estava espalhando essas placas?
Tudo indica que o autor das placas era da Filadélfia e, para fortalecer essa suspeita, numa das placas que apareceram no Rio de Janeiro, havia — além da mensagem principal — uma mensagem pedindo para escrever para um endereço na Filadélfia, EUA:
Escriva: Toynbee A, 2624 S. 7th Street Phila, PA, 19148–4610, USA
Para surpresa de muitos, o endereço era autêntico. Várias pessoas foram até o endereço informado nessa placa, mas não eram atendidas. Uma vizinha afirmou que o proprietário da casa não falava com ninguém, mas também disse ser pouco provável que ele fosse o autor das placas Toynbee. Ninguém sabe.
Por outro lado, muitos dedos têm sido apontados para um outro homem, chamado James J. Morasco.
Morasco, também da Filadélfia, é o principal suspeito por causa de uma entrevista que ele deu em 1983 para um jornal local, onde ele afirmava que Júpiter poderia ser colonizado enviando as pessoas mortas da Terra para lá, para que assim elas ressuscitassem (doido varrido?).
Quando tentaram contactar Morasco, em 2001, por telefone, sua esposa afirmou que um câncer tinha destruído suas cordas vocais e ele não podia falar. Mas insistiu que seu marido não sabia nada sobre as tais placas.
Em 2003, Morasco morreu.
E o mistério continua…
Esse texto foi escrito originalmente em 2009 e terminava aqui. O que se segue são atualizações do caso que aconteceram desde então.
…Ou não!
Em 2011, um documentário encaixou peças faltantes que deixaram o mistério a um passo de ser desvendado, faltando somente uma prova, já que evidências foram juntadas aos montes.
Chamado Resurrect Dead: The Mystery of the Toynbee Tiles, o documentário foi dirigido por Jon Foy e protagonizado pelo artista Justin Duerr. O filme consolidou anos de investigação e apontou um culpado provável desde sempre: Severino “Sevy” Verna, um eletricista recluso, morador da Filadélfia.
As evidências
O carro modificado: Testemunhas relataram que Verna dirigia um carro com o banco do passageiro removido e um buraco no assoalho. Isso explica como os blocos eram colocados no asfalto: ele simplesmente parava sobre a via e deixava o azulejo cair, envelopado em papel-alcatrão, esperando que o peso dos carros e o calor do sol fizessem o trabalho de fusão com o asfalto.
O bairro: As ruas vizinhas à antiga residência de Verna estavam repletas de fragmentos menores daquilo que era usado para fazer as placas, evidenciando uma área de testes.
Coincidência? Um copycat?
O mistério continua, porém, bem menos misterioso agora.









Interessante. Eu estudei as obras de Arnold J Toynbee. Agora fiquei muito curioso com esta história.