Na convicção de que estará livre de uma sociedade de consumo aquele que deixar de consumir ou, até mesmo, junto com outros, se rebelar e, numa revolução, mudar a forma de governo e as bases do estado, ele cai na maior das autoarmadilhas: a ilusão de uma sociedade sem consumo que culmina na miséria pela contínua procura e a falência da oferta.
Um pouco pesado para essa hora da manhã?
Vamos aos fatos que desencadearam isso: tem um hippie maconheiro, chamado Bruno, muito simpático, por sinal, e que, justamente por essa simpatia — com um toque de pureza ingênua — conquistou um enorme público no Instagram ao começar a postar seus passeios pelas praias e santuários hippies narrando de uma forma engraçada e cativante1.
Vendo uma oportunidade de melhorar aquilo e, quem sabe, tirar um trocado, começou a fazer rifas, com objetivos até bem claros: comprar um celular melhor para fazer os vídeos, bancar uma viagem para a capital dos maconheiros, São Tomé das Letras etc. Rifas singelas, onde seu público pode participar com alguns centavos e concorrer a dois mil reais, por exemplo.
Ele conseguiu comprar um novo celular, conseguiu ir fumar maconha em São Tomé, inclusive com maconheiros de renome, como o hesseano Ventania.
Vou abrir um parênteses aqui para falar disso. Para quem não conhece, Ventania é um célebre morador de São Tomé das Letras que fez sucesso com suas músicas, que possuem certa influência da obra de Hermann Hesse — “Só para loucos, só para os raros”, por exemplo. Quer saber? É uma ótima trilha para continuar a leitura.
Você encontrará muitos outros com essas mesmas influências da obra O Lobo da Estepe, que, no título original Steppenwolf, tornou-se nome de uma banda. Teatro Mágico é outra. E por aí vai. Mas vamos voltar ao ponto…
Num post recente, claramente chateado, ele, Bruno, conta que o criticaram nos comentários por estar fazendo aquelas rifas. Ele conta, então, algo pelo qual eu mesmo já passei: recusou contratos bem chamativos de empresas de apostas, as famosas “bets”.
Ele afirmou ser contra esse tipo de empresa em que a pessoa sempre vai perder e que aquele dinheiro que ele iria receber seria de pessoas que agora estavam desesperadas. Por fim, ainda disse que depois dessa última rifa, não iria fazer mais nenhuma também, para que não reclamassem.
Talvez, na ingenuidade, o Bruno caiu na autoarmadilha de terceiros que se iludem com o fim da sociedade de consumo: ele se tornou mais um brick in the wall.
“Mas por que”, me pergunta você, desavisado, “é errado se desvencilhar desse tipo de sociedade?”.
Não é errado. É impossível. O consumo, em sua forma mais primitiva, está enraizado em nossos genes. Resumir consumo a gastar dinheiro com produtos é uma visão muito superficial que esconde o real consumo e nos cria a ilusão supracitada.
Um dos pontos centrais da crítica à sociedade do consumo é a mercantilização do sujeito: a identidade é definida pelo que se compra e possui, transformando produtos em símbolos de status.
Ora, desde os tempos mais remotos o ser humano se definia por posses: as penas mais bonitas na cabeça, o maior toco para dar porrada etc. E não ache que somos só nós, humanos, que portamos esse tipo de cultura intrínseca. Tem várias espécies de ave que acumulam objetos encontrados para atrair as fêmeas. Uma dessas espécies é o pássaro-cetim, que coleciona um monte de objetos azuis diante de um altar construído por ele para chamar a atenção para si e, quem sabe, descolar um sexy time. E como disse Oscar Wilde:
“Tudo na vida é sobre sexo. Menos o sexo. Sexo é sobre poder.”
É bem provável que essa nossa natureza consumista seja justamente isso: impressionar para transar e transar para impressionar. O consumo não nasceu com o capitalismo; o capitalismo apenas industrializou um impulso biológico.
E esse consumo, esse acúmulo de posses para se ter status não se resume a dinheiro e produtos. A pessoa pode colecionar benfeitorias, atos de bravura e, até mesmo, conchinhas do mar. Tudo isso é um tipo de consumo. A maioria, paga com algo mais valioso que dinheiro: tempo.
“O preço de qualquer coisa é a quantidade de vida que você troca por isso.”
- Henry David Thoreau
Dessa forma, se engana aquele que acha que há alguma coisa grátis nesse mundo. Tudo é pago. Se você não está pagando, alguém pagou por você.
Recentemente também recebi uma crítica no Escriba Cafe de um ouvinte/leitor descontente com os e-mails e mensagens que envio incentivando as pessoas a assinarem o Escriba Cafe Premium. Em sua crítica ele protesta: “sem mais consumismo, as pessoas só pensam em vender”. Mas é aí que mora o diabo. Na ilusão de que um podcast que ele ouve gratuitamente, um texto como esse, que está público, que ele, talvez, leia e se inspire, é gratuito, ele ignora o fato de que só estou aqui investindo horas, dias, meses e anos do meu tempo porque alguém está pagando. São, por enquanto, poucas pessoas que geram um pequeno valor mensal, mas que é o suficiente para que eu deixe de lado outros afazeres para poder produzir o conteúdo exclusivo que esses assinantes tanto gostam e também o conteúdo que é oferecido gratuitamente a todos os demais — mas que foi “bancado” pelos assinantes premium.
Eu pago a criação de tudo isso aqui com meu tempo (e dinheiro, muito dinheiro que já foi investido). Alguns me dão dinheiro, outros auxílio e outros divulgação. Mas todo mundo está pagando. Todo mundo está consumindo. Menos o reclamante: ele consome, mas não paga. É esse tipo de pessoa que idealiza o fim da sociedade do consumo: aquele que acha que tudo é gratuito.
Vamos deixar anotado que o consumo exagerado e descartável, como o que estamos vivendo hoje, deve, sim, ser contido. Ele acaba levando muitos ao descontrole e gera uma cadeia de problemas, desde o desperdício e acúmulo de lixo até a desgraça psicológica do indivíduo.
No entanto, nossa necessidade natural de consumo continua lá. E enquanto o consumidor pagar, alguém vai produzir. Quando o consumidor deixar de pagar, o produtor vai parar de produzir. Mas o consumidor não vai querer parar de consumir e, aí, a miséria vem.
O link para o canal no Instagram do mesmo é: https://www.instagram.com/brunoskt_pereira



