William Shakespeare

Atualizado: Mar 27



A enigmática história de um dos maiores autores de todos os tempos.


William Shakespeare representado no "Chantos Portrait"

Direção, produção e edição: Christian Gurtner

Roteiro e Pesquisa: Christian Gurtner



Réplica do Globe Theater construído próximo do local original

Trilha Sonora

  • Misere - Trinity College

O restante da trilha sonora é via Epidemic.

Bibliografia

  • DASH, Mike. William Shakespeare, Gangster. Smithsonian Magazine. Disponível em: <https://www.smithsonianmag.com/history/william-shakespeare-gangster-129238903/>. Acesso em: 12 Mar. 2021.

  • HISTORY.COM EDITORS. William Shakespeare. HISTORY. Disponível em: <https://www.history.com/topics/british-history/william-shakespeare>. Acesso em: 11 Mar. 2021.

  • THE BRITISH LIBRARY. William Shakespeare. The British Library, 2021. Disponível em: <https://www.bl.uk/people/william-shakespeare#>. Acesso em: 12 Mar. 2021.

  • William Shakespeare: The life and legacy of England’s bard. BBC Teach. Disponível em: <https://www.bbc.co.uk/teach/william-shakespeare-the-life-and-legacy-of-englands-bard/zfw6d6f>. Acesso em: 22 Mar. 2021.



Visão interna da réplica do Globe Theater em Londres

Transcrição do episódio


O mundo é um palco; os homens e as mulheres, meros artistas que entram nele e saem. Cada um tem no seu tempo muitos papéis: sete atos, sete idades.


Na primeira, nos braços da ama grita e baba o infante.


Depois o escolar lamuriento, com a mochila, de rosto matinal, como serpente se arrasta para a escola, a contragosto.


Em seguida vem o amante, de fornalha acesa, celebrando em balada dolorida, as sobrancelhas da mulher amada.


A seguir estadeia-se o soldado, cheio de juras feitas sem propósito, com barba de leopardo, mui zeloso nos pontos de honra, a questionar sem causa, que a falaz glória busca até mesmo na boca dos canhões.


Segue-se o juiz, com ventre bem forrado de cevados capões, olhar severo, barba cuidada, impando de setenças e de casos da prática; desta arte seu papel representa.


A sexta idade em mangas pantalonas, tremelica, óculos no nariz, bolsa de lado, calças da mocidade bem poupadas, mundo amplo em demasia para as pernas tão mirradas; a voz viril e forte, que ao falsete infantil voltou de novo, cheia e sopra ao cantar.


A última cena, remete desta história aventurosa, é mero olvido, uma segunda infância, falha de vista, dentes, gosto e tudo.


Trecho da peça As you like it - Ato II, Cena 7




Primeiro ato.

O Nascimento.


Na Inglaterra, numa cidade chamada Stratford-upon-Avon vivia um homem de nome John Shakespeare,ele era um mercador que tinha negócios em agricultura, marcenaria, comércio e até empréstimo de dinheiro - o que era proibido a cristãos da época. Entre altos e baixos na sua vida financeira, se casou com Mary Arden, filha de um senhorio aristocrata. Tiveram oito filhos, dentre eles, William, que, em 26 de abril de 1564 foi batizado, datando assim seu nascimento, provavelmente três dias antes.

Não há nenhum registro da vida escolar de William, mas pressupõe-se que ele frequentou a escola local da pequena cidade de Stradford-upon-Avon, onde estudou gramática, latim e os clássicos.


Soneto CXXX


Os olhos de minha amada não são como o sol;

Seus lábios são menos rubros que o coral;

Se a neve é branca, seus seios são escuros;

Se os cabelos são de ouro, negros fios cobrem-lhe a cabeça.

Já vi rosas adamascadas, vermelhas e brancas,

Mas jamais vi essas cores em seu rosto;

E alguns perfumes me dão mais prazer

Do que o hálito da minha amada.

Amo-a quando ela fala, embora eu bem saiba

Que a música tenha um som muito mais agradável.

Confesso nunca ter visto uma deusa andar

– Mas minha amada, quando caminha, pisa no chão.

E assim, eu juro, minha amada é tão rara

Que torna falsa toda e qualquer comparação.



Segundo Ato

O Casamento


Aos dezoito anos, William Shakespeare se casa com Anne Hathaway, uma mulher oito anos mais velha. O casamento foi arranjando, provavelmente, por causa da gravidez de Anne, que após sete meses deu a luz a Susanna.


Algum tempo depois, em 1585, nascem os gêmeos Hamnet e Judith.


O fato é que logo após o nascimento dos gêmeos, biograficamente falando, Shakespeare desaparece. Não há qualquer registro, nota, documento, carta ou anotação sobre ele, até que em 1592, uma crítica, em um panfleto, de autoria de Robert Greene, acusa William de ser um escritor emergente sem talento para tal. E isso mostra que a essa altura o dramaturgo já tinha feito seu nome no teatro londrino.


Mas o que fez Shakespeare nos anos que ficaram conhecidos como anos perdidos? Uma ou outra evidência sugere que ele saiu de sua cidade natal após caçar veados de forma ilegal nas terras de um político local. Depois disso muitos especulam que ele teria trabalhado como professor, estudado ou simplesmente viajado pela Europa continental, o que explicaria o seu inexplicável conhecimento explicitado em política externa, história e autoridades de diversas partes. Mas o fato, é que ninguém sabe o que ele realmente fez nesses anos.



Ser ou não ser, eis a questão:

será mais nobre Em nosso espírito sofrer pedras e flechas Com que a Fortuna, enfurecida, nos alveja,

Ou insurgir-nos contra um mar de provocações E em luta pôr-lhes fim?

Morrer.. dormir: não mais.


Dizer que rematamos com um sono a angústia E as mil pelejas naturais-herança do homem: Morrer para dormir… é uma consumação Que bem merece e desejamos com fervor.


Dormir… Talvez sonhar: eis onde surge o obstáculo: Pois quando livres do tumulto da existência, No repouso da morte o sonho que tenhamos Deve fazer-nos hesitar: eis a suspeita Que impõe tão longa vida aos nossos infortúnios.


Quem sofreria os relhos e a irrisão do mundo, O agravo do opressor, a afronta do orgulhoso, Toda a lancinação do mal-prezado amor, A insolência oficial, as dilações da lei, Os doestos que dos nulos têm de suportar O mérito paciente, quem o sofreria, Quando alcançasse a mais perfeita quitação Com a ponta de um punhal?


Quem levaria fardos, Gemendo e suando sob a vida fatigante, Se o receio de alguma coisa após a morte, –Essa região desconhecida cujas raias Jamais viajante algum atravessou de volta – Não nos pusesse a voar para outros, não sabidos? O pensamento assim nos acovarda, e assim É que se cobre a tez normal da decisão Com o tom pálido e enfermo da melancolia;


Hamlet - Ato III, Cena 1 - de William Shakespeare



Terceiro ato

A carreira


Em 1592 William Shakespeare já tinha escrito várias peças e começava a trabalhar também como ator. A essa altura já tinha produzido as peças Os dois cavalheiros de Verona, A Comédia dos Erros, Titus Andronicus e as peças históricas Henrique VI e Ricardo III.


William estava afiliado a vários teatros e companhias. Em 1594 começou a produzir e atuar junto com a trupe Lord Chamberlain´s Men, da qual faria parte por mais de uma década.


Em 1595 morre o único filho homem de Shakespeare, Hamnet, que muitos historiadores defendem ter se chamado Hamlet, porém tendo o nome grafado de forma errada, o que não era incomum na época. O próprio William teve seu nome e sobrenome escrito de várias formas diferentes. Mas a questão é que muito se especula sobre uma uma das principais peças de Shakespeare ter sido escrita em homenagem ao seu filho: Hamlet.


Foi nessa época também que Shakespeare escreveu várias outras de suas famosas peças, como Romeu e Julieta, Sonho de uma noite de verão, Macbeth e Rei Lear. Boa parte dessas peças foram montadas no teatro que o grupo Lord Chamberlain´s Men ergueu: o Globe Theater, que seria um enorme sucesso em Londres por vários anos. Shakespeare tinha ficado próspero com suas peças e possuía 12.5% do The Globe.

Além disso havia comprado a New Place, uma das maiores casas de sua cidade natal e investindo em terras, evidenciando o sucesso do autor.


Em 1603, quando James I se colocou como patrono da trupe, a Lord Chamberlain´s Men mudou de nome para The King´s Men, ou, em português, Os Homens do Rei.


Além de peças, romances e poemas também foram escritos pelo bardo. Em 1609 é publicada uma coletânea com os 154 sonetos de Shakespeare, que muitos estudiosos afirmam provavelmente terem sido publicados sem o consentimento do autor, que os tinha escrito para seu círculo mais íntimo.


Com todos esses empreendimentos, William Shakespeare passa pouco tempo com a família, passando mais tempo em Londres e retornando esporadicamente para sua cidade natal.



Soneto XVIII

Se te comparo a um dia de verão

És por certo mais bela e mais amena

O vento espalha as folhas pelo chão

E o tempo do verão é bem pequeno.


Às vezes brilha o Sol em demasia

Outras vezes desmaia com frieza;

O que é belo declina num só dia,

Na eterna mutação da natureza.


Mas em ti o verão será eterno,

E a beleza que tens não perderás;

Nem chegarás da morte ao triste inverno:

Nestas linhas com o tempo crescerás.


E enquanto nesta terra houver um ser,

Meus versos vivos te farão viver.


Quarto Ato

A morte


Pouco depois de escrever a peça “Os dois nobres parentes” em colaboração com John Fletcher, e que provavelmente foi sua última peça, William Shakespeare morre, coincidentemente, no mesmo dia de seu provável nascimento, em 23 de abril de 1616.


Deixou todos os seus bens e propriedades para a filha e para sua esposa, curiosamente, deixou a sua segunda melhor cama.


Em seu túmulo, coberto por uma pedra, está escrito o que provavelmente é de sua própria autoria:


“Meu bom amigo, pelo amor de Jesus, Evita-te de cavar a poeira aqui enclausurada. Bendito seja aquele que poupar estas pedras, E amaldiçoado aquele que mover os meus ossos”

Sete anos depois uma coletânea com sua obra foi publicada, sendo considerada a mais completa, que foi compilada pelos seus amigos John Heminge e Henry Condell e as peças do bardo continuaram sendo apresentadas.


Mas em 1644, um poderoso grupo de puritanos, fecha e demole o Globe Theater, proibindo também qualquer manifestação teatral na cidade.


No entanto, a obra de Shakespeare se tornaria imortal. Além de sua enorme contribuição para a língua inglesa, a qual introduziu milhares de novas palavras e frases, tornou-se o mais influente dramaturgo do mundo. Sua obra foi traduzida para quase todos os idiomas. Suas peças foram montadas e apresentadas por séculos por todo o planeta até hoje, nos palcos, TV e cinema.


Amanhã, e amanhã, e ainda outro amanhã arrastam-se nessa passada trivial do dia para a noite, da noite para o dia, até a última sílaba do registro dos tempos. E todos os nossos ontens não fizeram mais que iluminar para os tolos o caminho que leva ao pó da morte. Apaga-te, apaga-te, chama breve! A vida é apenas uma sombra ambulante, um pobre palhaço que por uma hora se espavona e se agita no palco, e depois não é mais ouvido; é uma história contada por idiotas, cheia de fúria e muito barulho, que nada significa.

- Trecho de MacBeth


Quinto Ato

A controvérsia


Há porém uma pergunta que não se cala. Quem realmente foi William Shakespeare?

Tudo o que sabemos, de mais concreto, é que um homem chamado William Shakespeare nasceu em Stratford-upon-Avon em 1564, se casou e teve filhos nessa mesma cidade. Sabemos que um homem com esse mesmo nome foi para Londres e se tornou um ator e que esse mesmo nome assinou sonetos, romances e algumas das mais belas peças teatrais já escritas.


Sabemos também que seu nome aparece num obscuro caso judicial e também que essa pessoa voltou para sua cidade natal, fez um testamento e morreu em 1616.

Isso é basicamente tudo o que sabemos de William Shakespeare. O resto é especulação e dedução baseadas em pesquisas ou comparações.


Justamente por essa completa falta de informações históricas sobre uma pessoa tão importante, é que perguntas criaram teorias conspiratórias, como a de que Shakespeare, na verdade, fora usado como um espécie de laranja-autoral por uma ou mais pessoas que queriam publicar sua obra mas ficar no anonimato por questões políticas. Apesar de essa teoria ser bastante difundida, ela é refutata pela maioria dos estudiosos.


No entanto, há uma linha sendo pesquisada de que Shakespeare foi um pouco mais barra pesada do que imaginamos. Há um documento com uma acusação contra William de ameaça de morte. Outras evidências também sugerem que ele possa ter usado de meios obscuros para subir na vida e alcançar o sucesso.


Mas a única certeza que temos, é que obras foram assinadas pelo nome William Shakespeare. E essas obras influenciam até hoje a arte, a história e a vida de toda a humanidade.


Seja ele quem for, conquistou o que muito poucos conseguem: a eternidade.


Os trechos da obra de Shakespeare utilizados nesse episódio foram, na ordem, “O mundo é um palco”, da peça As you like it - ato 2, cena 7; Soneto 130, “Ser ou não ser” trecho de Hamlet, ato 3 - cena 1; Soneto XVIII; Amanhã, Amanhã, de Macbeth Ato V, cena 5;


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“Boa noite, boa noite. Toda despedida é dor. Tão doce, todavia, que eu te diria boa noite até que amanhecesse o dia”





Sobre o testamento de Shakespeare, fica como bônus desse episódio essa curiosidade: ele deixou sua segunda melhor cama para a esposa. Pode parecer estranho, mas na verdade, camas eram móveis extremamente caros na época. E as pessoas usavam esse tipo de coisa para se exibirem. Assim a melhor cama, provavelmente ficava numa parte da casa onde era vista pelas visitas e também usada pelas mesmas, como fora de a família mostrar que era próspera. Assim a segunda melhor cama era a que o casal usava de fato.


E mesmo com essa modesta herança, pela lei inglesa da época, a viúva tinha direito a um terço da fortuna, independente do que estava escrito no testamento. Porém, uma coisa é realmente anormal. Na época era comum os maridos aproveitarem o testamento explicitar algum carinho para as esposas, o que não aconteceu no testamento de Shakespeare. O por quê, é provável que jamais saibamos.

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