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  • William Shakespeare

    A enigmática história de um dos maiores autores de todos os tempos. Direção, produção e edição: Christian Gurtner Roteiro e Pesquisa: Christian Gurtner Trilha Sonora Misere - Trinity College O restante da trilha sonora é via Epidemic. Bibliografia DASH, Mike. William Shakespeare, Gangster. Smithsonian Magazine. Disponível em: . Acesso em: 12 Mar. 2021. HISTORY.COM EDITORS. William Shakespeare. HISTORY. Disponível em: . Acesso em: 11 Mar. 2021. THE BRITISH LIBRARY. William Shakespeare. The British Library, 2021. Disponível em: . Acesso em: 12 Mar. 2021. William Shakespeare: The life and legacy of England’s bard. BBC Teach. Disponível em: . Acesso em: 22 Mar. 2021. Transcrição do episódio O mundo é um palco; os homens e as mulheres, meros artistas que entram nele e saem. Cada um tem no seu tempo muitos papéis: sete atos, sete idades. Na primeira, nos braços da ama grita e baba o infante. Depois o escolar lamuriento, com a mochila, de rosto matinal, como serpente se arrasta para a escola, a contragosto. Em seguida vem o amante, de fornalha acesa, celebrando em balada dolorida, as sobrancelhas da mulher amada. A seguir estadeia-se o soldado, cheio de juras feitas sem propósito, com barba de leopardo, mui zeloso nos pontos de honra, a questionar sem causa, que a falaz glória busca até mesmo na boca dos canhões. Segue-se o juiz, com ventre bem forrado de cevados capões, olhar severo, barba cuidada, impando de setenças e de casos da prática; desta arte seu papel representa. A sexta idade em mangas pantalonas, tremelica, óculos no nariz, bolsa de lado, calças da mocidade bem poupadas, mundo amplo em demasia para as pernas tão mirradas; a voz viril e forte, que ao falsete infantil voltou de novo, cheia e sopra ao cantar. A última cena, remete desta história aventurosa, é mero olvido, uma segunda infância, falha de vista, dentes, gosto e tudo. Trecho da peça As you like it - Ato II, Cena 7 Primeiro ato. O Nascimento. Na Inglaterra, numa cidade chamada Stratford-upon-Avon vivia um homem de nome John Shakespeare,ele era um mercador que tinha negócios em agricultura, marcenaria, comércio e até empréstimo de dinheiro - o que era proibido a cristãos da época. Entre altos e baixos na sua vida financeira, se casou com Mary Arden, filha de um senhorio aristocrata. Tiveram oito filhos, dentre eles, William, que, em 26 de abril de 1564 foi batizado, datando assim seu nascimento, provavelmente três dias antes. Não há nenhum registro da vida escolar de William, mas pressupõe-se que ele frequentou a escola local da pequena cidade de Stradford-upon-Avon, onde estudou gramática, latim e os clássicos. Soneto CXXX Os olhos de minha amada não são como o sol; Seus lábios são menos rubros que o coral; Se a neve é branca, seus seios são escuros; Se os cabelos são de ouro, negros fios cobrem-lhe a cabeça. Já vi rosas adamascadas, vermelhas e brancas, Mas jamais vi essas cores em seu rosto; E alguns perfumes me dão mais prazer Do que o hálito da minha amada. Amo-a quando ela fala, embora eu bem saiba Que a música tenha um som muito mais agradável. Confesso nunca ter visto uma deusa andar – Mas minha amada, quando caminha, pisa no chão. E assim, eu juro, minha amada é tão rara Que torna falsa toda e qualquer comparação. Segundo Ato O Casamento Aos dezoito anos, William Shakespeare se casa com Anne Hathaway, uma mulher oito anos mais velha. O casamento foi arranjando, provavelmente, por causa da gravidez de Anne, que após sete meses deu a luz a Susanna. Algum tempo depois, em 1585, nascem os gêmeos Hamnet e Judith. O fato é que logo após o nascimento dos gêmeos, biograficamente falando, Shakespeare desaparece. Não há qualquer registro, nota, documento, carta ou anotação sobre ele, até que em 1592, uma crítica, em um panfleto, de autoria de Robert Greene, acusa William de ser um escritor emergente sem talento para tal. E isso mostra que a essa altura o dramaturgo já tinha feito seu nome no teatro londrino. Mas o que fez Shakespeare nos anos que ficaram conhecidos como anos perdidos? Uma ou outra evidência sugere que ele saiu de sua cidade natal após caçar veados de forma ilegal nas terras de um político local. Depois disso muitos especulam que ele teria trabalhado como professor, estudado ou simplesmente viajado pela Europa continental, o que explicaria o seu inexplicável conhecimento explicitado em política externa, história e autoridades de diversas partes. Mas o fato, é que ninguém sabe o que ele realmente fez nesses anos. Ser ou não ser, eis a questão: será mais nobre Em nosso espírito sofrer pedras e flechas Com que a Fortuna, enfurecida, nos alveja, Ou insurgir-nos contra um mar de provocações E em luta pôr-lhes fim? Morrer.. dormir: não mais. Dizer que rematamos com um sono a angústia E as mil pelejas naturais-herança do homem: Morrer para dormir… é uma consumação Que bem merece e desejamos com fervor. Dormir… Talvez sonhar: eis onde surge o obstáculo: Pois quando livres do tumulto da existência, No repouso da morte o sonho que tenhamos Deve fazer-nos hesitar: eis a suspeita Que impõe tão longa vida aos nossos infortúnios. Quem sofreria os relhos e a irrisão do mundo, O agravo do opressor, a afronta do orgulhoso, Toda a lancinação do mal-prezado amor, A insolência oficial, as dilações da lei, Os doestos que dos nulos têm de suportar O mérito paciente, quem o sofreria, Quando alcançasse a mais perfeita quitação Com a ponta de um punhal? Quem levaria fardos, Gemendo e suando sob a vida fatigante, Se o receio de alguma coisa após a morte, –Essa região desconhecida cujas raias Jamais viajante algum atravessou de volta – Não nos pusesse a voar para outros, não sabidos? O pensamento assim nos acovarda, e assim É que se cobre a tez normal da decisão Com o tom pálido e enfermo da melancolia; Hamlet - Ato III, Cena 1 - de William Shakespeare Terceiro ato A carreira Em 1592 William Shakespeare já tinha escrito várias peças e começava a trabalhar também como ator. A essa altura já tinha produzido as peças Os dois cavalheiros de Verona, A Comédia dos Erros, Titus Andronicus e as peças históricas Henrique VI e Ricardo III. William estava afiliado a vários teatros e companhias. Em 1594 começou a produzir e atuar junto com a trupe Lord Chamberlain´s Men, da qual faria parte por mais de uma década. Em 1595 morre o único filho homem de Shakespeare, Hamnet, que muitos historiadores defendem ter se chamado Hamlet, porém tendo o nome grafado de forma errada, o que não era incomum na época. O próprio William teve seu nome e sobrenome escrito de várias formas diferentes. Mas a questão é que muito se especula sobre uma uma das principais peças de Shakespeare ter sido escrita em homenagem ao seu filho: Hamlet. Foi nessa época também que Shakespeare escreveu várias outras de suas famosas peças, como Romeu e Julieta, Sonho de uma noite de verão, Macbeth e Rei Lear. Boa parte dessas peças foram montadas no teatro que o grupo Lord Chamberlain´s Men ergueu: o Globe Theater, que seria um enorme sucesso em Londres por vários anos. Shakespeare tinha ficado próspero com suas peças e possuía 12.5% do The Globe. Além disso havia comprado a New Place, uma das maiores casas de sua cidade natal e investindo em terras, evidenciando o sucesso do autor. Em 1603, quando James I se colocou como patrono da trupe, a Lord Chamberlain´s Men mudou de nome para The King´s Men, ou, em português, Os Homens do Rei. Além de peças, romances e poemas também foram escritos pelo bardo. Em 1609 é publicada uma coletânea com os 154 sonetos de Shakespeare, que muitos estudiosos afirmam provavelmente terem sido publicados sem o consentimento do autor, que os tinha escrito para seu círculo mais íntimo. Com todos esses empreendimentos, William Shakespeare passa pouco tempo com a família, passando mais tempo em Londres e retornando esporadicamente para sua cidade natal. Soneto XVIII Se te comparo a um dia de verão És por certo mais bela e mais amena O vento espalha as folhas pelo chão E o tempo do verão é bem pequeno. Às vezes brilha o Sol em demasia Outras vezes desmaia com frieza; O que é belo declina num só dia, Na eterna mutação da natureza. Mas em ti o verão será eterno, E a beleza que tens não perderás; Nem chegarás da morte ao triste inverno: Nestas linhas com o tempo crescerás. E enquanto nesta terra houver um ser, Meus versos vivos te farão viver. Quarto Ato A morte Pouco depois de escrever a peça “Os dois nobres parentes” em colaboração com John Fletcher, e que provavelmente foi sua última peça, William Shakespeare morre, coincidentemente, no mesmo dia de seu provável nascimento, em 23 de abril de 1616. Deixou todos os seus bens e propriedades para a filha e para sua esposa, curiosamente, deixou a sua segunda melhor cama. Em seu túmulo, coberto por uma pedra, está escrito o que provavelmente é de sua própria autoria: “Meu bom amigo, pelo amor de Jesus, Evita-te de cavar a poeira aqui enclausurada. Bendito seja aquele que poupar estas pedras, E amaldiçoado aquele que mover os meus ossos” Sete anos depois uma coletânea com sua obra foi publicada, sendo considerada a mais completa, que foi compilada pelos seus amigos John Heminge e Henry Condell e as peças do bardo continuaram sendo apresentadas. Mas em 1644, um poderoso grupo de puritanos, fecha e demole o Globe Theater, proibindo também qualquer manifestação teatral na cidade. No entanto, a obra de Shakespeare se tornaria imortal. Além de sua enorme contribuição para a língua inglesa, a qual introduziu milhares de novas palavras e frases, tornou-se o mais influente dramaturgo do mundo. Sua obra foi traduzida para quase todos os idiomas. Suas peças foram montadas e apresentadas por séculos por todo o planeta até hoje, nos palcos, TV e cinema. Amanhã, e amanhã, e ainda outro amanhã arrastam-se nessa passada trivial do dia para a noite, da noite para o dia, até a última sílaba do registro dos tempos. E todos os nossos ontens não fizeram mais que iluminar para os tolos o caminho que leva ao pó da morte. Apaga-te, apaga-te, chama breve! A vida é apenas uma sombra ambulante, um pobre palhaço que por uma hora se espavona e se agita no palco, e depois não é mais ouvido; é uma história contada por idiotas, cheia de fúria e muito barulho, que nada significa. - Trecho de MacBeth Quinto Ato A controvérsia Há porém uma pergunta que não se cala. Quem realmente foi William Shakespeare? Tudo o que sabemos, de mais concreto, é que um homem chamado William Shakespeare nasceu em Stratford-upon-Avon em 1564, se casou e teve filhos nessa mesma cidade. Sabemos que um homem com esse mesmo nome foi para Londres e se tornou um ator e que esse mesmo nome assinou sonetos, romances e algumas das mais belas peças teatrais já escritas. Sabemos também que seu nome aparece num obscuro caso judicial e também que essa pessoa voltou para sua cidade natal, fez um testamento e morreu em 1616. Isso é basicamente tudo o que sabemos de William Shakespeare. O resto é especulação e dedução baseadas em pesquisas ou comparações. Justamente por essa completa falta de informações históricas sobre uma pessoa tão importante, é que perguntas criaram teorias conspiratórias, como a de que Shakespeare, na verdade, fora usado como um espécie de laranja-autoral por uma ou mais pessoas que queriam publicar sua obra mas ficar no anonimato por questões políticas. Apesar de essa teoria ser bastante difundida, ela é refutata pela maioria dos estudiosos. No entanto, há uma linha sendo pesquisada de que Shakespeare foi um pouco mais barra pesada do que imaginamos. Há um documento com uma acusação contra William de ameaça de morte. Outras evidências também sugerem que ele possa ter usado de meios obscuros para subir na vida e alcançar o sucesso. Mas a única certeza que temos, é que obras foram assinadas pelo nome William Shakespeare. E essas obras influenciam até hoje a arte, a história e a vida de toda a humanidade. Seja ele quem for, conquistou o que muito poucos conseguem: a eternidade. Os trechos da obra de Shakespeare utilizados nesse episódio foram, na ordem, “O mundo é um palco”, da peça As you like it - ato 2, cena 7; Soneto 130, “Ser ou não ser” trecho de Hamlet, ato 3 - cena 1; Soneto XVIII; Amanhã, Amanhã, de Macbeth Ato V, cena 5; Sigam o Escriba Cafe no instagram. “Boa noite, boa noite. Toda despedida é dor. Tão doce, todavia, que eu te diria boa noite até que amanhecesse o dia” Sobre o testamento de Shakespeare, fica como bônus desse episódio essa curiosidade: ele deixou sua segunda melhor cama para a esposa. Pode parecer estranho, mas na verdade, camas eram móveis extremamente caros na época. E as pessoas usavam esse tipo de coisa para se exibirem. Assim a melhor cama, provavelmente ficava numa parte da casa onde era vista pelas visitas e também usada pelas mesmas, como fora de a família mostrar que era próspera. Assim a segunda melhor cama era a que o casal usava de fato. E mesmo com essa modesta herança, pela lei inglesa da época, a viúva tinha direito a um terço da fortuna, independente do que estava escrito no testamento. Porém, uma coisa é realmente anormal. Na época era comum os maridos aproveitarem o testamento explicitar algum carinho para as esposas, o que não aconteceu no testamento de Shakespeare. O por quê, é provável que jamais saibamos.

  • Será que temos, mesmo, o livre arbítrio?

    Dentre tudo que se junta para tentar dar sentido à vida, à sociedade e até mesmo à religião, o livre arbítrio talvez seja um dos pilares da resposta. Mas, e se... O livre-arbítrio não existe? Numa experiência realizada nos anos 80, o fisiologista Benjamin Libet demonstrou que o cérebro de uma pessoa mostra atividade elétrica antes de, por exemplo, ela mexer a mão. Na verdade, o que acontece é que, antes mesmo de a pessoa tomar, conscientemente, a decisão de mover a mão, seu cérebro já havia tomado essa decisão, fazendo com que nossa consciência, ou aquilo que pensamos ser o momento que tomamos uma decisão, nada mais é do que uma testemunha de uma decisão que já tinha sido tomada pelo subconsciente. Vários outros experimentos posteriores mostraram o mesmo fenômeno. A neurociência, principal responsável por colocar o livre arbítrio em cheque, prega que, se tivéssemos tecnologia o suficiente para mapear a estrutura e química do cérebro de um indivíduo, poderíamos acertar com 100 por cento de precisão qual seria a reação desse indivíduo a qualquer estímulo. Mas o subconsciente é parte da mente da pessoa, não caracteriza isso uma forma de tomada de decisão livre? De acordo com vários estudiosos, não. O neurocientista Sam Harris, autor do livro Free Will, conclui que o subconsciente de cada um nada mais é do que o resultado de seus genes e o ambiente no qual foi inserido e criado. Assim, qualquer decisão nossa será uma reação que foi moldada por esses fatores, os quais também estão fora de nosso controle. Não podemos escolher nossos genes nem nosso ambiente de criação. E assim, nossas experiências no mundo são causadas ou por fatores externos ou por reações baseadas em nossos genes e ambiente, fazendo com que essas experiências também sejam fatores externos. E é por meio de nossas experiências que vamos construindo nossa vida. Ou seja, não houve nenhuma decisão particularmente nossa, e sim uma reação baseada em como nosso cérebro foi programado por outras pessoas/fatores. Isso coloca no limbo estruturas básicas de nossa sociedade. O sistema penal, por exemplo: quem comete um crime o está fazendo por que tomou a decisão de cometer ou porque teve o azar de ter nascido com aqueles genes e ser criado naquele ambiente? Numa sociedade de robôs que se dividem entre sortudos e azarentos - e nada mais - como podemos conviver conscientemente com isso? Vamos parar, sentar e só assistir? Vamos nos iludir que estamos tomando nossas decisões? Se estivéssemos certos de que não temos livre arbítrio, é bem provável que todo nosso conceito de moral cairia abaixo, já que qualquer ação sua, na verdade, foi causada por um mecanismo que já estava em andamento muito antes de você nascer. É como uma pessoa culpar o seu signo por ser uma megera insensível. O fato é que, como demonstrado em outros experimentos, acreditar no livre arbítrio impede as pessoas de cometerem atos imorais, como trapacear e roubar, deixando também as pessoas mais caridosas. E é essa ilusão que nos sustenta em sociedade. Mas Sam Harris defende seu ponto e afirma que, aceitando que não temos o livre arbítrio propriamente dito, podemos aprofundar nossos estudos sobre o cérebro humano e, entendendo por completo seu funcionamento, será fácil evitar que as pessoas, por exemplo, desenvolvam tendências criminosas ou fanáticas desde o nascimento. Mas o outro lado da história, que, por falar em história, já é tão antigo quanto nossas primeiras perguntas existenciais, mantém-se nessa eterna guerra entre livre-arbítrio e o determinismo. Determinismo vs Livre-Arbítrio O determinismo é o princípio de que tudo no universo está interligado e que tudo, inclusive o comportamento e as ações humanas, são predeterminados e sujeitos a regras imutáveis, sendo a sensação de liberdade pura ilusão. Medonho, não? Mas é praticamente isso que experimentos como os já citados buscam provar. A questão é que o determinismo parece ser completamente oposto ao livre-arbítrio. Mas, e se pudéssemos unir ambos? Compatibilismo Defendido por grandes filósofos como Thomas Hobbes, John Locke, David Hume, Arthur Schopenhauer e John Stuart Mill, o compatibilismo afirma que somos livres e determinados. Ou seja, não há conflito significante entre as duas filosofias. O Princípio das Possibilidades Alternativas de Peter Van Inwagen defende o compatibilismo, afirmando que mesmo que ações sejam predeterminadas, podemos agir de maneira diferente por termos várias possiblidades, e a nossa escolha dependerá de nossa ação. Você ter lido esse texto até aqui foi algo predeterminado, uma livre escolha ou ambos?

  • A Idade das Trevas Digital

    Na sala da casa no meio do bosque, a estante cheia de livros era iluminada pela lareira - que espantava também o frio do outono. Os livros eram os mais variados, desde romances de Agatha Christie até tratados filosóficos. Mas além dos livros, havia também cartas trocadas entre o velho e parentes e amigos do passado e fotos. Eram fotos que remontavam três gerações, de 1900, até o ano de 2010. Mas esse era o ano de 2090, quando uma avalanche vinda dos alpes ao lado do bosque, soterrou a casa enquanto o mundo estava numa grande guerra mundial que aniquilaria boa parte da civilização. É engraçado pensar que em meio a toda a discussão sobre o aquecimento global, algumas regiões do planeta ficavam gradativamente mais frias e, por isso, a neve que soterrou a casa jamais derreteu. No ano de 5900, por algum milagre, o ser humano ainda não tinha se autodestruído por completo. Uma equipe num laboratório recebe um alerta automatizado de uma das sondas que, diariamente, tiravam amostras do solo e do ar de toda a parte do planeta para os mais diversos fins. Esse em especial mandava seus dados processados, de uma área coberta por gelo: algo tinha sido encontrado ali. Pouco tempo depois, uma equipe de arqueólogos, usando equipamentos robóticos e lasers, rapidamente limpam com precisão toda a área, revelando aquela casa de mais de três milênios inacreditavelmente preservada. Por alguma sorte bioquímica que não se sabe explicar, a casa - e todo o seu conteúdo - estava exatamente como no dia em que foi soterrada. Aquilo foi um grande achado para os historiadores que, há muito, tentam saber como foi o século XXI e XXII, e uma casa completa preservada daquele jeito era o santo graal para remontar a história da vida privada dos humanos naquela época. Mas novamente se deparam com um antigo problema: após analisar todo o material da residência, percebem que não há mais fotos e cartas depois de meados do ano 2000. Boa parte da história da vida privada no século XXI e XXII simplesmente não existia. O que aconteceu? A resposta provavelmente estava naqueles arcaicos computadores e telefones que os historiadores encontravam por todos os lados, mas depois da tempestade eletromagnética que afligiu o planeta no século XXII, não sobrou muita coisa. Uns poucos que encontraram em condições de leitura, continham dados tão antigos e obsoletos que não puderam ser recuperados. Mas não é só isso.... Os cientistas de hoje afirmam que estamos na iminência de uma "idade das trevas digital", ou um "buraco negro da informação". Isso porque as fotos, livros e "cartas" das pessoas estão 100% na "nuvem" ou em algum HD. Quando um membro dessa geração morrer, toda sua memória e documentos históricos estarão trancados atrás de alguma senha do Google, Apple ou num HD, com grandes chances de que nunca sejam recuperados. Enquanto os historiadores de hoje se deliciam com cartas trocadas entre personalidades históricas que nos ajudaram a conhecer a história de toda uma época, desde Plínio, o Jovem contando sobre o ocorrido em Pompeia até Einstein debatendo ciência com outras personalidades, os historiadores do futuro não contarão com isso. Os emails e conversas em aplicativos estão protegidos por senha e criptografia. Além disso, documentos, registros públicos, dados de experimentos e pesquisa, notícias e outra infinidade de conteúdo estão no meio digital, o que com o tempo, se nada for feito, também serão perdidos para sempre: seja por formatos obsoletos ou arquivos corrompidos. Um exemplo recente disso são os dados da Viking, da NASA, que pousou em Marte em 1976, que não podem mais ser lidos por estarem obsoletos. Vint Cerf, do Google, chama o século XXI de "Século Perdido". Ele, e várias outras organizações estão na vanguarda para evitar essa Idade das Trevas digital, procurando formas de manter toda nossa informação digital protegida. E como farão isso com as fotos privadas atrás de senhas na nuvem? Imagina seus nudes e constrangedoras fotos de bebedeira expostos em um museu no ano de 5900? É engraçado. Mas me faz pensar em como estamos levando nossa vida. Tudo o que você está fazendo te faria sentir orgulho ou passar vergonha caso fosse exposto num museu?

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