Não somos livres.
Por mais que tenhamos o anseio de o sermos, por mais que guerras sejam travadas em nome da liberdade e revoltas históricas tenham se romantizado, não somos e, principalmente, não queremos ser livres.
Tratei, num artigo recente, o Conceito de Angústia1 de Kierkegaard2, em que, inaugurando o existencialismo, ele coloca a liberdade como a causadora dessa angústia. O homem é livre para tomar as decisões que influenciam sua vida e é obrigado a sofrer as consequências dessas decisões.
O problema da liberdade começa nesse ponto. Perdida, a pessoa se aflige diante das possibilidades; ela tem vertigem. Assim, um dos grandes pensadores brasileiros resumiu esse pensamento de Kierkegaard num famoso aforismo:
“O que é que eu vou fazer com essa tal liberdade?” — Alexandre Pires
A liberdade cotidiana — aquela em que somos livres para tomar decisões sobre nossa vida, escrever asneiras na internet e andar pelas ruas — nos ilude. A liberdade total é algo muito mais profundo e perigoso. É sermos livres para fazer absolutamente tudo o que quisermos. E isso é possível?
Viver em sociedade envolve leis, regras e protocolos. Tudo isso para que a liberdade de um não tolha a liberdade de outrem e que a liberdade geral não cause o caos. Abrir mão dessas leis e regras certamente causaria uma sucessão de tragédias.
“Não estou dizendo para matar todos os idiotas. Estou dizendo é para remover todas as placas de perigo e deixar a coisa se resolver por si só.”
A liberdade total, inclusive, seria uma catástrofe. Ninguém quer ser totalmente livre. Seguindo um pensamento de Thomas Hobbes3, ao nos livrarmos de todas as amarras da sociedade, do emprego, da família e do coletivo, nos encontraremos vivendo em um modelo selvagem: seríamos nós e a natureza. E essa, de forma simples e sem nenhum julgamento, é a mais cruel das ditadoras. Ali se vive sob a constante prisão do medo, da necessidade, da fisiologia e do clima. Vive-se sob a “lei da selva”. Ou seja, quanto mais livre, menos livre. Esse é o Paradoxo da Liberdade.
Assim, trocamos pedacinhos de liberdade por segurança, conforto, comida e até prazer.
Por outro lado — numa sociedade civilizada e que preza pela máxima liberdade possível —, todos são livres para escolher quem são. No pensamento sartriano, a “existência precede a essência”. Nós não nascemos com um propósito ou manual de instruções. São nossas escolhas contínuas que constroem quem somos, ou seja, nossa Essência. Porém, unindo isso ao pensamento kierkegaardiano, nota-se a angústia diante dessa liberdade.
E não adianta tentar fugir: é impossível escolhermos não sermos livres, pois até mesmo a recusa em tomar uma decisão é, per se, uma escolha.
“O homem está condenado a ser livre.” — Jean-Paul Sartre
A obra usada como capa desse artigo é Prometeu Acorrentado, de Thomas Cole, 1847
A Angústia de ser livre, disponível neste link.
Søren Aabye Kierkegaard (1813 - 1855). Filósofo dinamarquês, fundador do existencialismo
Thomas Hobbes (1588 - 1679). Filósofo inglês, autor de Leviatã e um dos fundadores da filosofia política moderna.




