“Fascismo, nazismo, comunismo e socialismo são apenas variações superficiais do mesmo tema monstruoso: o coletivismo.”
— Ayn Rand
Num mundo tão dividido, cheio de ódio, abismos sociais, culturas conflitantes e, algumas, até destrutivas, pensar em uma sociedade unida trabalhando em prol do coletivo e sacrificando suas ambições individuais para focar no bem de todos parece ser a receita para, finalmente, o mundo prosperar como um todo e em paz.
Esse é o ponto central do coletivismo, uma forma de organização social em que o indivíduo é subordinado ao coletivo.
No entanto, tudo que derivou do coletivismo falhou miseravelmente: nazismo, comunismo, socialismo, fascismo e outros “ismos” que tinham o coletivismo como pilar central.
Mas por que uma ideia que pinta um quadro tão “bonito” sempre resulta em catástrofe? E por que ainda tentam criar sociedades coletivistas?
A resposta é a mesma: por causa da natureza humana. A nossa espécie é egoísta por natureza. Mas isso não é ruim, pois é o egoísmo que nos faz prosperar, inventar, construir, evoluir e, pasmem, sermos caridosos.
Você pode estranhar eu dizer que a caridade é consequência do egoísmo, mas pense comigo: quando você vê um outro ser humano sofrendo, passando fome, sendo injustamente tratado, o que você sente? A não ser que você seja um sociopata, você se sente mal. Alguns mais, outros menos, mas a grande maioria se sentirá mal. E se você tiver o poder de facilmente aliviar aquilo, seja dando uma esmola ou uma criando uma instituição de caridade, você o faria. E para quê? Para se sentir melhor. Não tenha medo de enxergar isso: você ajuda uma outra pessoa para se sentir melhor, para tentar aliviar aquela dor ou mal-estar que você sente ao vê-la sofrendo.
Eu chamo isso de egoísmo primordial, outros chamam de “compaixão”. Prefiro o meu termo, ele reflete melhor a verdade. O fato é que fomos programados para nos sentirmos mal ao vermos o outro sofrer e isso nos motiva a tomar ações para evitarmos essa dor ao evitar que o outro sofra injustamente. Até aquilo que fazemos aparentemente com maldade, como não dividir coisas, é um mecanismo antigo que nos ajudou a sobreviver em situações de escassez.
Note que isso não são escolhas; são comportamentos intrínsecos que dividimos com a maioria dos colegas de espécie, assim como o sexo, o medo e a individualidade. Sim, a individualidade. Mesmo sendo seres muito parecidos em nossa essência, carregamos diferenças primordiais que a loteria genética nos dá em seu longo processo de “tentativa e erro” e desenvolvemos outras através de nossas experiências e ambientes. Com isso, tendemos a ficar cada vez melhores, mais ricos, mais atraentes, mais renomados para… comer gente.
Sim, tudo gira em torno do sexo, ou como Oscar Wilde1 bem disse: “Tudo na vida é sobre sexo, menos o sexo, o sexo é sobre poder”. E o poder é o que buscamos. E, como grupo, precisamos de alguém mais poderoso, mais forte, mais inteligente que todos os demais para nos liderar. E assim segue: sempre alguém tentando tomar o poder para ser o líder e, para isso, em tese, tem que ser mais forte e capaz que o líder atual para conseguir vencê-lo numa disputa. A consequência disso? Mais sexo. O poder, o “sucesso”, atrai as fêmeas. O líder vai comer mais gente e, por ser mais forte e capaz, tem grandes chances de gerar uma prole mais forte e capaz que as demais, num ciclo que vai se repetir com “candidatos” cada vez mais fortes e capazes.
E sim, ainda estamos falando de instinto.
Hoje, com nossa racionalidade desenvolvida (pelo menos em teoria) e civilizações cheias de costumes e cultura, as coisas são mais complexas – e até absurdas – mas, ainda assim, seguem um padrão parecido. O problema é que as disputas e as ambições individuais deixam, justa ou injustamente, perdedores pelo caminho. Assim surgem os abismos sociais que ativam aquele nosso outro mecanismo: dói ver as pessoas na pobreza ou, pior ainda, na total miséria e fome.
Vários pensadores colocaram suas cabeças e penas para teorizar aquilo que viam. Rousseau e Hegel trouxeram o coletivismo como a única forma de o indivíduo conquistar a liberdade e a moral. Karl Marx deixou isso de forma mais clara quando escreveu: “Não é a consciência dos homens que determina o seu ser, mas sim o seu ser social que determina a sua consciência”.
Eis os últimos séculos.
E assim buscamos primeiro um inimigo para, então, iludir-nos com a ideia de que, se derrotarmos esse “inimigo”, o problema se resolveria. E o suposto inimigo foi encontrado: eram os indivíduos; os “egoístas”; os que acumularam fortunas; os que eram mais abonados que a massa. Cabeças rolaram (literalmente), monarquias foram derrubadas e famílias ricas, trucidadas em revoluções e golpes para que o poder não fosse mais do indivíduo, mas do coletivo. Que as escolhas fossem unicamente pensadas e tomadas para essa corporação humana de pessoas social e economicamente iguais. O indivíduo agora era somente uma célula de um grande organismo que, para se manter “saudável”, precisava alimentar suas células boas e se livrar das ruins. Era o coletivismo em sua forma mais prática.
A beleza das ideias de Rousseau, Hegel, Marx – e tantos outros – não poderia ser reproduzida na prática porque essas ideias de um coletivo sorridente trabalhando para o bem geral dependiam unicamente daqueles que não foram programados para isso: os humanos. E qual foi a forma de fazer o coletivismo ser aplicado na prática? Violência, opressão e medo.
E como uma cereja para o bolo da ironia, esses regimes coletivistas tinham líderes. Os fortes, poderosos, espertos. E esses líderes estavam sempre sob ameaça de tomada de poder por outros concorrentes. Parece familiar? Não bastasse isso, a massa nivelada num patamar, vendo qualquer conquista ou vitória pessoal ser diluída entre o grupo – “para o bem do grupo” – simplesmente perde a motivação inconsciente de progredir individualmente, tornando-se uma fraca célula de um organismo cada vez mais desnutrido que irá, em algum momento, colapsar ou, numa opção mais otimista, estagnar evolutivamente como civilização.
É interessante concluir que aplicar o coletivismo pode ser o pior golpe para o coletivo.
É a boa e velha natureza humana explicitando a impossibilidade de apagar o indivíduo por um coletivo. Mas uma massa incapaz de compreender esse conceito básico e movida pelo ódio implantado contra os mais ricos, poderosos e afortunados, ainda tenta trazer de volta o monstro de Rand.
E qual é a forma de aplicar o coletivismo mesmo?
Somos uma espécie ultrassocial que sobreviveu graças à colaboração tribal; encontrar um equilíbrio entre a motivação individual e a coesão social é um ponto a ser tratado como civilização, e não tentando impor um ou outro peso ao bel-prazer de um indivíduo (novamente a ironia) ou de um grupo ideológico movido pelo… (vamos respirar para a palavra final) …egoísmo.
Sim, o egoísmo primordial pode ser — e é — uma ferramenta para o bem do grupo. Ao tratar sua cidade como seu lar, você se sentirá “mal” ao ver alguém jogar lixo no chão e sujar o seu espaço. Da mesma forma, ficará com raiva de quem cometer crimes pela cidade ou de políticos que roubarem impostos, querendo eliminar esse “câncer” do seu convívio. Não porque você valoriza o coletivo abstrato, mas porque você quer uma cidade limpa, segura e próspera para que possa, como indivíduo, viver em paz e alegria.
Apesar de ser amplamente creditada a Wilde, não há um registro que comprove a autoria.




Ideias muito claras! Interessantíssimo, obrigada